Havana

Havana

Em Cuba  pude perceber claramente como a minha opiniao e o meu julgamento em relaçao a um lugar podem mudar de acordo com minhas experiencias precedentes.

Me explico: cheguei em Cuba por Havana e passei meu primeiro dia ali, deslumbrada com a quantidade absurda de carros anos 50 em circulaçao, apaixonada pela arquitetura da cidade, impressionada como Havana estava parada no tempo…

Quer dizer, todas as minhas expectativas a respeito de Cuba se superaram logo no primeiro dia de viagem.

E a simpatia dos cubanos sò acrescentou mais fascinio a Havana. Tinha aquele ar de cidade pequena, onde todo mundo sorri pra todo mundo, as pessoas se cumprimentam, param pra ajudar…

No segundo dia, seguimos para Santiago de Cuba de aviao, alugamos um carro e voltamos pra Havana sò depois de duas semanas rodando pelo interior do pais.

A cada cidade por onde passavamos, eu me surpreendia mais e mais com Cuba, as cidades pequenas por onde passavamos eram um “concentrado” de todos os “detalhes” que me deslumbravam em Havana e as pessoas que encontravamos eram sempre mais e mais simpaticas e disponiveis.

Resultado, nos meus dois ultimos dias de viagem, quando finalmente voltei pra visitar Havana, achei a capital tao cosmopolita e tao globalizada, as pessoas tao “indiferentes” aos turistas, como uma tipica cidade grande.

No inicio da viagem, meus olhos viam uma Havana parada no tempo com as pessoas mais simpaticas e disponiveis do mundo, no final da viagem, meus olhos viam uma Havana cosmopolita com habitantes mais introspectivos e menos disponiveis, com todas as vantagens e desvantagens de uma cidade grande.

Achei impressionante como a minha percepçao de um lugar mudou tanto em tao pouco tempo, o que nao significa que Havana seja menos interessante ou sem nenhum fascinio por causa disso.

Pelo contrario, Havana conseguiu me surpreender duas vezes e por razoes opostas: a primeira vez como uma cidade pequena parada no tempo e a segunda vez como uma capital cosmopolita!

Fala a verdade, sao pouquissimas as cidades do mundo que tem esse poder!

Vale de Vinales

Vale de Vinales

O nosso objetivo com a visita à regiao de Vinales, na realidade eram as plantacoes de tabaco e os famosos charutos cubanos, mas… jà que estavamos na area, por que nao aproveitar e visitar o Vale de Vinales?

Esse vale possui uma paisagem unica e incrivelmente bonita constituida por estranhas formaçoes calcareas que lembram um pouco o nosso Pao de Açucar. Essas formaçoes calcareas, chamadas mogotes, estao entre as mais antigas de Cuba.

Hà muitos milhoes de anos a regiao era um enorme plateau de calcario e a agua subterranea  causou a erosao do terreno formando grandes cavernas, cujos tetos mais tarde desabaram, restando de pè somente as “colunas” de calcario duro, que hoje sao os mogotes.

O centro de visitantes do Parque Nacional de Vinales è super completo e oferece todo tipo de informaçao e assistencia para quem quer visitar a regiao e propoe ainda algumas visitas guiadas a pè e a cavalo. E aqui começou o meu martirio…

Depois de uma tentativa frustrada de andar a cavalo no Pantanal e ter prometido a mim mesma que nunca mais me meteria num programa de indio desses de novo, là estava eu montada no bicho mais uma vez…

O problema è que nesse parque nacional, nao dà pra escapar do cavalo: de carro dà pra chegar mais perto dos principais pontos de interesse e sò! A pè o passeio è bem mais curto, dà pra ver as principais atraçoes, mas nao dà pra ir muito longe… Sò sobra o cavalo mesmo…

Excluindo o cavalo, o passeio è uma delicia. O nosso guia vai explicando sobre o lugar, o modo de vida das pessoas que moram ali e fazemos algumas paradas estrategicas pelo caminho.

Paramos para ver o Mural da Pre Historia (um artista cubano pintou a historia da evoluçao em uma das faces de um mogote), para tomar caldo de cana e bater papo na casa de um campones e tambem para uma visita a uma caverna com direito a nadar no escuro, a luz de velas, numa agua fria e limpida de um lago dentro da caverna. Tinha uns malucos nadando… eu tenho medo de agua fria, ainda mais no escuro!

Apesar de a paisagem ser escandalosamente bonita, eu achei que ela foi mera coadjuvante no passeio. Como em praticamente todos os lugares que visitei em Cuba, o que mais me marcou e o que mais gostei foram os momentos de bate papo com os cubanos, seja com os camponeses que visitamos e que nos ofereceram caldo de cana, seja com o nosso guia.

E  essa foi realmente a ultima vez que eu me aventuro por ai montada num cavalo! Prometo!

Camaguey

Camaguey

Camaguey è a terceira maior cidade de Cuba em numero de habitantes e possui como principal caracteristica o desenho irregular de suas ruas.

Na realidade, a Camaguey original foi fundada perto da costa, para os lados de onde hoje se encontra a cidade de Nuevitas, mas por causa dos ataques de pirates e revoltas dos indigenas que se recusavam à dominaçao espanhola no seculo XVI, Camaguey foi “transferida” para o interior.

E justamente para dificultar e desorientar seus agressores, Camaguey foi construida em forma de labirinto. Hoje, as suas ruas tortuosas, becos, bifurcaçoes e praças tudo no melhor estilo colonial serve sò para desorientar os turistas.

E pra piorar as coisas para os pobre visitantes, andaram mudando os nomes das ruas. Entao no mapa constam os nomes novos, mas muitas placas e mesmo os habitantes da cidade indicam ainda o nome velho…

Dà pra imaginar as brigas com o marido no volante e euzinha servindo de co-pilota, tentando me achar no mapa da cidade…

Camaguey tambem è conhecida como a cidade dos tinajones, tipicos e enormes vasos de ceramica, que foram introduzidos por imigrantes catalaes no seculo XVIII e que serviam para guardar comida e agua da chuva.

Nao sei se os tinajones ainda possuem as mesmas finalidades de antigamente, mas eles estao espalhados por toda a cidade enfeitando praças e jardins.

Um outro “enfeite” que me chamou muito a atençao em uma das praças mais graciosas da cidade, a Plaza del Carmen, foram as esculturas em tamanho natural de pessoas ocupadas na sua rotina diaria.

Essas esculturas me impressionaram pela realidade que representam, pois ao lado de esculturas de mulheres conversando, de um homem lendo jornal, de um casal namorando, vimos um homem de verdade tocando violao, que poderia muito bem ser mais uma escultura daquelas.

Uma outra praça muito pitoresca de Camaguey è a Plaza San Juan de Dios, com construçoes coloniais totalmente restauradas e muito coloridas e conta com um museu no edificio que um dia foi o hospital dirigido pelo Padre Jose Olallo, o primeiro santo cubano.

Camaguey pode ser um lugar fascinante para quem gosta de se perder e descobrir angulos escondidos e lugares encantadores, mas pra quem nao liga muito pra isso, Camaguey è tao somente uma cidade colonial e nada mais.

Parque Nacional Desembarco del Granma

Parque Nacional Desembarco del Granma

Toda viagem que se preze tem que ter pelo menos um perrengue e um programa de indio para poder contar historia.  Na nossa viagem a Cuba tivemos varios perrengues e varios programas de indio, mas pra mim, o programa de indio vencedor de toda a viagem foi esse bate e volta ao Parque Nacional Desembarco del Granma a partir de Santiago de Cuba.

Tudo começou quando vi num guia um passeio belissimo de carro de Santiago de Cuba a Manzanillo via Cabo Cruz, seguindo pela estrada costeira. Segundo o guia, a estrada costeira è super panoramica e o tour contava com uma visita ao parque, que alem de sua importancia por causa dos terraços marinhos de carste, ainda foi palco do inicio da revoluçao que levou Fidel ao poder.

Conta a historia que Fidel estava exilado no Mexico e em 1956 partiu para Cuba no iate Granma com outros revolucionarios, inclusive Che Guevara. Por causa de um erro de navegaçao, ao inves de desembarcarem em Niquero, acabaram desembarcando na praia Las Coloradas.

O iate foi interceptado pelo exercito de Batista e a maior parte dos revolucionarios foram capturados e assassinados. Fidel Castro e outros 2 guerrilheiros conseguiram fugir para a Sierra Maestra e por isso esse parque virou um tipo de “santuario” para a Revoluçao Cubana.

Pois bem, a culpa do programa de indio nao foi totalmente do guia… O guia sugeria tao somente o trajeto de ida – e nao o bate e volta como nòs fizemos – e o guia tinha sido escrito antes de um furacao ter destruido completamente a estrada costeira.

No hotel em Santiago tinham nos avisado que a estrada nao estava em boas condiçoes, mas como ainda estavamos no inicio da viagem, ainda nao tinhamos entendido que se um cubano diz que a estrada è boa, significa que a estrada è ruim; mas se um cubano diz que a estrada nao è boa, è melhor ficar bem longe dela!

Juro que eu ficava feliz quanto tinha buraco na estrada, pois um pressuposto para a existencia de buracos è a existencia de uma estrada… Passamos por pontes que estavam metade destruidas e a outra metade caindo, literalmente, eu tava tao tensa que nem lembrei de fotografar… Mas uma coisa è certa: a estrada è realmente panoramica! Tinha momentos em que a agua do mar quase entrava no carro… E nao estou exagerando!

Finalmente chegamos no parque. Um guardinha bem solicito cobrou uma taxa para entrarmos e deu algumas orientaçoes sobre o restaurante em Cabo Cruz, lugares para estacionar, informaçoes sobre as trilhas. Para a minha surpresa, tudo muito organizado.

Seguimos direto para o tal restaurante em Cabo Cruz – depois do desespero sempre vem a fome. Comemos dois pratos: um com peixe e outro com lagosta, 3 cervejas, um pudim de sobremesa e dois cafès e a conta foi de 4 dolares!! Na realidade, sò custou 4 dolares pq a garconete arredondou pra mais o valor da conta  quando fez a conversao para pesos cubanos.

Resolvemos começar nossa visita pelo parque propriamente dito, fazendo a trilha mais famosa (e pelo jeito unica) do lugar, o Sendero El Guafe, um passeio bem gostoso e facil de 2km, onde se pode observar milhares de borboletas, passaros de todos os tipos e atè um cactos de 500 anos.

A atraçao principal dessa trilha, na realidade,è o terreno carstico e as varias cavernas formadas por um rio subterraneo e em uma delas tem uma estalagmite onde foi esculpida o Idolo das Aguas pela populaçao prè-colombiana.

Acabamos nos demorando muito na trilha e jà estavamos com o tempo contado, pois ainda tinhamos que voltar pra Santiago de Cuba e o objetivo era nao viajar de noite. Por isso, nao entramos no Museo Las Coloradas, que mostra o percurso seguido por Fidel e Che para chegarem a Sierra Maestra e vimos sò a copia em tamanho natural do iate Granma, que fica do lado de fora. (Como o Granma original està em Havana, nao nos demoramos muito ali tambem.)

Ainda que a estrada de retorno para Santiago nao tenha sido a costeira, mas sim a estrada interna de Manzanillo, nao conseguimos cumprir nosso objetivo e a maior parte da viagem de retorno foi feita depois do por do sol e foi muito, muito tensa…

Se tem uma coisa que nòs aprendemos nessa viagem foi: nunca, jamais, em hipotese alguma dirija de noite em Cuba!

Castillo del Morro

Castillo del Morro

O nome completo desse castelo è Castillo de San Pedro de la Roca del Morro e fica praticamente encostado no aeroporto de Santiago de Cuba.

Atualmente, por causa dessa sua localizaçao estrategica, os turistas todos tem a mesma ideia e vao diretamente do aeroporto para o tour. Nòs alugamos um carro e fizemos isso, e todo mundo que estava no voo com a gente tambem (todo mundo mesmo, pois a capacidade do aviao era de 20 pessoas e que as outras 18 pessoas eram um unico grupo de japoneses).

O Castillo del Morro foi projetado em 1567 para defender Santiago de Cuba dos ataques dos piratas, mas na realidade ele nunca serviu pra isso…

Por causa de problemas financeiros, sò começaram as obras em 1633, que duraram 60 anos! E antes de ter sido terminado jà tinha sido devastado e conquistado por piratas e corsarios.

No inicio de 1700, quando finalmente o castelo foi terminado, jà nao servia pra muita coisa, pois a pirataria estava em declinio e o castelo acabou virando uma prisao atè a guerra da independencia quando voltou a ser uma fortaleza, para se defender das frotas americanas…

Na decada de 60 do seculo passado resolveram restaurar o castelo e, atualmente, o castelo è sede do Museo de la Pirateria. O museu è bem interessante, com armas, fotos e explicaçoes sobre piratas e corsarios (eu nao sabia a diferença entre uns e outros!) e tb sobre a guerra naval de independencia.

Mas bonita mesmo è a propria construçao do castelo, que a Unesco considerou patrimonio da humanidade por ser “o mais completo e bem conservado exemplo de arquitetura militar hispano-americana, baseada em principios do renascimento italiano” e, è claro, a vista espetacular que sò esses castelos sabem oferecer!

Valle de los Ingenios

Valle de los Ingenios

Essa visita ao Valle de los Ingenios foi a tipica “jà que” , a caminho de Trinidad: Jà que estamos aqui perto…  jà que è quase hora do almoço… jà que a principal atraçao do lugar hoje è um restaurante…

Por que nao juntar o util ao agradavel e almoçar no que um dia foi uma fazenda de cana de açucar e ter uma boa introduçao dos aureos tempos de Trinidad, que estavamos indo visitar?

Pois bem, a riqueza de Trinidad na verdade nao se acumulou na cidade propriamente dita, mas nos seus arredores, no chamado Valle de los Ingenios, cujo nome deriva dos engenhos de cana de açucar construidos no inicio do seculo XIX.

Uma visita a esse vale permite entender um pouco sobre a estrutura social das fazendas, com as casas dos senhores de engenho e as cabanas dos escravos.

A atraçao principal è a Manaca Iznaga, uma casa de 1750, adquirida por Pedro Iznaga em 1795, que se tornou um dos homens mais ricos de Cuba por causa do comercio de escravos.

Essa casa està intacta e foi transformada num restaurante, com uma decoraçao bem “casa de fazenda de cana de açucar cubana”. A comida do restaurante segue o padrao dos restaurantes cubanos, bom mas nada de memoravel e o preço è bem turistico, por volta de 12 dolares um prato bem servido.

Nos fundos da casa tem uma enorme prensa, onde se pode tomar caldo de cana bem fresco e geladinho, feito pelo proprio cliente.

Como eu sou chegada em lugares com vista, nao pude deixar de subir as ingremes escadas de madeira para chegar ao topo da Torre Iznaga, logo ao lado da casa senhoril.

Essa torre foi construida para afirmar a autoridade dos Iznaga sobre o Vale e, principalmente, para poder controlar os escravos. Hoje a torre Iznaga è tao somente um otimo lugar para se ter uma boa panoramica do vale em volta.

Achei que essa paradinha “jà que” bem estrategica que fizemos foi perfeita: visitamos um lugar interessante que nos introduziu na historia de Trinidad.

E foi perfeita porque nao passou disso: uma parada estrategica. Na minha opiniao, nao vale a pena sair de Trinidad especialmente para visitar esse vale.

Trinidad

Trinidad

Trinidad foi a cidade que mais se aproximou do meu estereotipo de “cidade colonial cubana”: cidade pequena, quase sonolenta, o tempo parado na epoca colonial do comercio de açucar, uns carros antigos aqui e ali, crianças brincando nas ruas e gente nas portas e janelas vendo a vida passar…

Mas apesar de ser a mais, digamos, “obvia” das cidades cubanas, ainda assim Trinidad surpreende, como tudo em Cuba.

O centro historico restaurado hà pouco tempo dà a impressao de algum cenario de filme, tà tudo bonito, limpo e colorido, exibindo com orgulho toda a riqueza do inicio do seculo XIX, periodo de seu maior esplendor.

Quem gosta de arquitetura vai se deliciar com as fachadas das casas: normalmente uma grande porta central e janelas quase do mesmo tamanho das portas com persianas de madeira e muitos detalhes para serem admirados.

As portas, muitas vezes, sao emolduradas por colunas, pilastras e desenhos e as janelas das casas mais “modernas” possuem desenhos ornamentais em ferro torcido. Um show!

Andar pelas ruas do centro historico de Trinidad e se perder no meio dos detalhes dessas portas e janelas tao bem conservadas chega a ser tao ou mais interessante do que a Plaza Mayor, o cartao postal da cidade e onde estao concentradas as maiores atraçoes da cidade.

A construçao que chama mais atençao nao poderia deixar de ser a Igreja da Santissima Trindade, construida no seculo XIX e que, segundo o guia possui um bonito altar de madeira esculpida, todo decorado. Nao conseguimos visitar essa igreja por dentro, pois nossos horarios nao coincidiam com os horarios de abertura da igreja (das 11h00 as 12h30 e durante as missas).

Do lado da igreja està o Museu Romantico, no antigo Palacio Brunet, com uma exposiçao de moveis e objetos pertencentes às mais ricas familias locais no seculo XIX. Vale a visita!

A poucos passos da Plaza Mayor està o museu de maior prestigio em Trinidad, o Museu Historico Municipal, tambem chamado de Palacio Cantero, por causa de seu ex-proprietario, um latifundiario alemao chamado Kanter.

Segundo as màs linguas, Cantero ficou rico porque envenenou um velho magnata do açucar e se casou com a viuva, que, por sua vez, tambem morreu precocemente… Fofocas a parte, sò a vista da cidade do alto da torre jà vale o ingresso nesse museu!

A igreja e o mosteiro de Sao Francisco talvez seja o ponto turistico mais “reconhecivel” de Trinidad por causa do campanario amarelo que se ve de longe.

Essa igreja foi construida em 1730, foi transformada numa guarniçao do exercito espanhol em 1895 e em 1930 uma boa parte da igreja e do mosteiro foram demolidas, sobrando sò o campanario e algumas construçoes adjacentes.

Hoje essa igreja se tornou a sede do Museo de la Lucha contra Bandidos, com fotos e objetos  sobre a luta contra os “contra-revolucionarios” no inicio da decada de 60. Na minha opiniao, a unica coisa que vale a pena de ser vista nesse museu è o panorama da cidade do alto do campanario…

Na Plaza Mayor tem ainda outros museus que, por opçao, nao visitamos: museu de arqueologia, galeria de arte, museu de arquitetura.

A cidade è tao incrivel, que me parecia quase um sacrilegio ficar dentro de museus e perder a chance de perambular por suas ruas.

Cafetal La Isabelica

Cafetal La Isabelica

No alto da Gran Piedra encontramos uma placa improvisada indicando uma trilha para o Cafetal La Isabelica.  Marido enfiou na cabeça que queria ir e là fomos nòs.

A trilha, que estava atè bem facinho no começo, se transformou em uma estrada de terra escorregadia e cheia de buracos. Nao tinha nem uma alma por ali e nenhuma indicaçao tb… Continuamos em frente com fè de que mais cedo ou mais tarde encontrariamos alguem ou alguma coisa.

Dito e feito. Depois de uma meia hora de caminhada no meio do nada, encontramos um passante que nos confirmou a direçao e disse que o Cafetal estava proximo.

Existem varias plantaçoes de cafè “em ruinas” nos arredores da Gran Piedra, pois Cuba jà foi um importante centro produtor de cafè no novo mundo, por volta de 1800, atè quando a produçao começou a cair por causa da concorrencia, principalmente do Brasil, e problemas locais como furacoes e a guerra da independencia.

O unico cafezal que ainda està de pè è o La Isabelica, que foi transformado em um tipo de museu onde sao ilustrados os metodos de produçao do cafè em uso na època.

Tem a casa grande de dois andares, onde no andar de cima estao os moveis de epoca usados pelos senhores do cafè e na parte de baixo ficava um tipo de armazem para o cafè, para os utensilios e ferramentas. Do lado de fora tem um espaço enorme onde os graos de cafè eram colocados para secar.

A visita a todo o cafezal è guiada, com explicaçoes bem detalhadas de cada parte da produçao do cafè e do modo de vida de senhores e escravos que viveram e trabalharam ali.

No final da visita “oferecem” (custa 1 CUC) uma xicara do cafè produzido no cafezal. Nao sei se eu estava sob a influencia do ambiente, mas foi o melhor cafè que tomei em Cuba!

Se vale a pena a visita? Marido italiano gostou bastante, para ele era tudo novidade e exotico, ele nao tinha ideia de como o cafè è produzido e nunca tinha visto uma planta de cafè de perto.  Eu achei a visita interessante, mas sou nascida e criada no interior do Paranà, cercada de cafezais, entao apesar de achar a visita interessante, nao me acrescentou muito.

Viva la Revolucion

Viva la Revolucion

Eu bem que tentei evitar o assunto por causa de possiveis polemicas, mas nao consigo… Eu preciso escrever o que vi e ouvi em Cuba sobre o sistema de governo cubano! E’ impossivel fazer uma viagem para Cuba e ficar indiferente àquilo que faz de Cuba um lugar unico no mundo.

Mas antes de começar, quero deixar claro que nao tenho a intençao de fazer nenhuma critica ou elogio a nada ou a ninguem. A minha intençao è simplesmente contar o que vi e ouvi, com a natural curiosidade de uma turista que se surpreende com uma realidade muito diferente da que està habituada.

Cada vez que penso na viagem que fizemos, tenho a certeza de que alugar um carro foi a melhor parte da viagem. Foi da janela do carro que vi as placas pelas estradas, foram os caroneiros que nos contavam suas historias de vida, era o radio do carro que nos mantinha informados dos acontecimentos em Cuba e no mundo…

E a impressao que eu tive è que os defensores da revoluçao cubana tentam convencer a todos e a todo o custo de que a revoluçao foi a melhor coisa que poderia ter acontecido em Cuba, que se nao fosse a revoluçao estariam todos muito piores e que com a ajuda de todos os cubanos o inimigo jamais vencerà.

Pelas estradas existem centenas de placas com “Viva la Revolucion”, “Viva Fidel” e viva mais um monte de guerrilheiros, considerados herois nacionais e que eu nao conhecia atè entao. Placas grandes, com fotos e que assinalavam as batalhas vencidas por cada um, como um grande livro de historia a ceu aberto recordando a todos que è possivel vencer o inimigo.

Alem dessas, outro tipo muito comum de placa era aquelas com frases de efeito, como aquela famosa de Che Guevara: “Hasta la victoria siempre!” e muitas outras que diziam basicamente que com “trabalho e sacrificio venceremos a batalha!”, “mas unidos y mas combativos” e tantas outras “defendiendo el socialismo”.

De vez em quando aparecia uma ou outra placa mais ousada, com o desenho da bandeira de Cuba que mata uma aguia ou escritas mais contundentes contra os “imperialistas”.

Ouvir o radio no carro era interessantissimo.  Primeiro porque nao existe comercial, eu nao me lembrava mais como è viver num mundo sem propaganda (privada!) no radio e segundo, mesmo sem ter propaganda, quase nao toca musica!

A programaçao era feita basicamente de noticias e programas educativos sobre saude, comportamento e tambem recados e classificados, sempre  acompanhados de um “Viva la revolucion!” a cada tanto. E quando  informavam a hora e a data, o ano nao era 2010 ou 2011, mas era sempre o 52° aniversario do triunfo da revoluçao.

As noticias eram tao descaradamente parciais que eu quase nao acreditava no que estava ouvindo. Em qualquer estaçao de radio, em qualquer noticiario, era sempre a mesma coisa: o que acontecia de bom em Cuba era exaltado como se fosse a maior das conquistas e a noticia era repetida a exaustao, seja a colheita recorde de algum lugar ou o baixo indice de mortalidade infantil na cidadezinha nao sei aonde.

Nao me lembro de ter ouvido nenhuma noticia sobre algo ruim que tenha acontecido em Cuba… E justamente por causa da parcialidade das informaçoes, eu ficava prestando atençao no conteudo das noticias com uma curiosidade, digamos, estatistica.

As noticias ruins que eu ouvi eram sempre relacionadas aos Estados Unidos. Qualquer coisa que fizessem era pintada como o diabo, e seja là o que for deve ser combatido atè a morte!

Apesar da parcialidade descarada, era muito interessante ouvir o ponto de vista de quem defende o Iran e a Coreia do Norte.  Me fez pensar e refletir sobre a parcialidade  menos descarada ou disfarçada das noticias que ouço na Italia ou no Brasil.

O engraçado da programaçao das radios è que tem atè mesa-redonda! Eu nao sei como eles conseguiam montar um debate com pessoas que possuem a mesma opiniao sobre o assunto… Enfim…

A seçao classificados tambem era interessantissima e ouvindo os anuncios me dei conta do alcance da inexistencia de propriedade privada no pais! Ninguem comprava ou alugava casa, mas todo mundo trocava de casa!

Em Havana tinha uma TV no nosso quarto e as propagandas do governo me deixavam de queixo caido. Juro que vi uma propaganda que afirmava que as crianças comunistas sao mais altas que as crianças capitalistas, com direito a grafico de crescimento e tudo!

Saber o que um cubano pensa sobre Fidel e sua politica de governo era a minha maior curiosidade, mas nao tinha coragem de perguntar, pra nao parecer uma ignorante alienada (apesar de ser uma ignorante alienada quando o assunto è governo em Cuba!) que acha que em Cuba sò existe Fidel, como no Brasil sò existe Carnaval e na Italia, a Mafia.

Tive sorte! Nao precisei começar o assunto nenhuma vez! Eram sempre os cubanos que queriam saber o que nòs achavamos de Lula e de Berlusconi, o que me dava a chance de perguntar a eles o que achavam de Fidel.

As respostas me surpreenderam. Quando se referem a politica, notei que eles usam muito aquele vocabulario presente nas radios e nas placas pela estrada: “companheiro”, “nosso chefe e comandante Fidel”, “o triunfo da revoluçao”, “sacrificio e trabalho”…

Mas tambem notei que nao existia entusiasmo pelo estilo de vida que levavam. Os nossos caroneiros se lamentavam que em Cuba sò està bem quem trabalha com turista, pois o salario de um medico è o equivalente a 25 dolares por mes…  Quem trabalha com turistas recebe gorjetas de 1 ou 2 dolares mais de uma vez por dia, fora o salario.

Em uma casa particular, os proprietarios falaram que agora a situaçao està melhorando, que o periodo especial foi de muita miseria, mas que ninguem pode falar mal do governo. Segundo me falaram, o governo dà uma cesta basica mensal a todas as familias e quem è contra o governo corre o risco de ser “esquecido” na hora da entrega dessa cesta basica. Que isso aconteceu com o filho da vizinha da cunhada da prima de nao sei quem…

Mas todos os cubanos se orgulham – e nao è para menos! – que Cuba possui o menor indice de mortalidade infantil e uma das maiores taxas de alfabetizaçao da America Latina. Achei admiravel o valor que os cubanos dao à saude e à educaçao, sao evidentemente a prioridade no pais, e me espantei quando descobri que Cuba fez um acordo com a Venezuela de modo a obter petroleo em troca de medicos! (O acordo è antigo, mas eu jà avisei que sou uma ignorante alienada quando o assunto è governo de Cuba)

Cuba è realmente um pais fascinante e unico, ninguem consegue voltar pra casa indiferente depois de um viagem pra là. E’ um choque de realidade!

Gran Piedra

Gran Piedra

Um bate-e-volta facil e bem comum a partir de Santiago de Cuba, pra quem dispoe de um meio de transporte proprio ou gosta muuuuito de caminhar, è a Gran Piedra, um gigantesco monolito imerso no verde.

Para se chegar a Gran Piedra se deve percorrer (de carro ou a pè) 12km de subida numa estrada tortuosa e muito mal conservada, mas que oferece paisagens maravilhosas com muitas arvores que refrescam o ar e, entre um tronco e outro, dà pra espiar o panorama.

Quando a estrada acaba, basta subir mais 459 degraus para se chegar ao topo da Gran Piedra. Parece muito, mas è mais facil do que aquelas escadas que levam ao teto de qualquer igreja italiana.

No topo vc descobre pq o nome do lugar è Gran Piedra: è uma pedra enorme de 25m que descansa a mais de 1200m de altura.

A vista là de cima è espetacular, dà pra ver longe, longe. Seguimos a orientaçao do guia que aconselhava a visitar a Gran Piedra de manha, pois a neblina è bem comum durante a tarde e a vista fica prejudicada…

Diz a lenda que nos dias mais claros, os que nao sao miopes como eu conseguem enxergar atè o Haiti e a Jamaica…

Para voltar, existem duas opçoes: os 459 degraus ou um desvio, descendo pelo outro lado, que leva ao Cafetal La Isabelica.

Nòs descobrimos esse desvio por causa de uma placa estrategicamente colocada no alto da Gran Piedra e resolvemos encara-lo. (Na realidade, marido quis encara-lo e eu nao tive muita escolha!)

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