Os flamingos da Camargue

Continuando o esquema tranquilinho de viagens, aproveitamos os dias bonitos de primavera para passearmos pelo sul da França. Nas minhas pesquisas prè-viagem descobri que a regiao da Camargue nao vive sò de sal, mas tambem possui a maior populaçao de flamingos da Europa.

Esses flamingos se reunem de março a maio no Parc Ornithologique du Pont de Gau para namorar e o ovo, fruto desse amor todo, è chocado tanto pelo macho e quanto pela femea por um mes aproximadamente.

Em termos pratico-viagisticos, isso significava que a minha chance de topar com um parque cheio de flamingos, em pleno mes de abril, era altissima e, com isso, fizemos um pequeno desvio de 30km de Arles, para conferir o tal parque com os flamingos.

Marido nao tava muito esperançoso…  A sua maior preocupaçao era se enfiar num lugar cheio de mato e mosquito e sò depois de caminhar muito, com muita sorte, conseguiremos avistar um flamingo aqui e outro ali. E’ aquela velha historia: “parque nacional nao è jardim zoologico…”

Nao nesse caso! Esse parque è praticamente um jardim zoologico! Vc paga o ingresso, anda uns 200m e chega num lago jà entupido de flamingos! E os flamingos ficam bem felizes e tranquilos na beirinha do lago, fazendo pose para serem fotografados! Nem precisa de zoom na maquina fotografica automatica!

Na bilheteria do parque eles entregam um mapinha com todos os percursos disponiveis dentro do parque, assinalando os melhores pontos para avistar os flamingos, mas nòs ficamos tanto tempo nesse primeiro lago e tiramos tantas fotos, que a fome apertou e acabamos desistindo de ver o resto do parque.

E na saida foi inevitavel o pensamento de futura mamae: “nao vejo a hora de trazer a minha pequena para conhecer esse lugar!”

 

 

As 5 viagens mais romanticas que jà fizemos

Seguindo na cola da Mirella do exxxxxxcelente blog Mikix, para comemorar Valentine’s Day, eis as 5 viagens mais romanticas que jà fizemos:

1 – Istanbul: foi uma surpresa que meu entao namorado, atual marido, me fez. Eu sò fui descobrir para onde estava indo no aeroporto… 🙂

2 –  Carnaval em Veneza: apesar de carnaval nao ter nada de romantico, o marido entrou no clima do personagem e se transformou num verdadeiro galanteador e, com Veneza como pano de fundo, nao poderia ser mais romantico!

3 – Saint Emilion: um chic nic a base de queijos e vinhos num hotel perdido no meio de vinhedos.  Tem programa mais romantico que esse?

4 – Ushuaia: “fin del mondo, principio de todo”, onde fui pedida em casamento.

5 – Ngorongoro: a nossa lua de mel na Tanzania foi maravilhosa, mas Ngorongoro foi um dos lugares mais fantasticos e romanticos que visitei na vida.

Como sao sò 5, vou parando por aqui, mas daria pra fazer um top 10 facil! E vc? Quais foram as suas viagens mais romanticas?

Salinas Reais

Salinas Reais

Outro passeio bem interessante que fizemos na nossa viagem pela Bourgogne foram as Salinas Reais de Arc et Senans e Salin le Bains a uns 90km de Dijon, jà na regiao francesa do Jura.

Hà milhares de anos, essa regiao francesa era coberta pelo mar, o que significa que possui extratos de sal no seu subsolo com a mesma composiçao do sal marinho. Com as chuvas, a agua se infiltra no subsolo, passa por esses extratos de sal  e formam fontes de agua salgada em poços subterraneos com uma concentraçao de sal de 330 gramas por litro. A titulo de comparaçao, a agua do Mediterraneo possui uma concentraçao de 35 gramas de sal por litro de agua.

Ali na regiao existem duas salinas: a de Salins les Bains e a salina de Arc et Senans, tambem chamada de salinas reais, que, na minha opiniao, se completam turisticamente falando.

As salinas de Salins les Bains è onde estao os poços de sal, os equipamentos para sua extraçao e que foi muito rica por mais de 1200 anos por causa da extraçao do sal. Hoje o lugar nao passa de uma cidadezinha sonolenta e as salinas se transformaram em museu com visitas guiadas.

E’ o lugar onde vc vai aprender tudo sobre sal, sobre sua produçao e vai ver todos os equipamentos utilizados ao vivo e a cores. E’ claro que como todo lugar de trabalho pesado, essa salina nao è exatamente bonita ou fotogenica, mas è uma super visita para poder entender a salina de Arc et Senans, cujas explicaçoes estao mais voltadas para a arquitetura do lugar e nao para o sal.

Arc et Senans foi ideia do rei Luis XV. Como estava sobrando dinheiro por ali, o rei contratou um arquiteto para construir um complexo para a exploraçao do sal.

O lugar deveria ser o nucleo de uma nova e importante cidade que nunca foi construida por causa da Revoluçao Francesa e acabou se revelando um enorme elefante branco. Detalhe: nas Salinas Reais nao tem sal, entao foi construido um tubo de 17km para transportar a salmoura de Salins atè Arc et Senans.

O lugar è realmente bonito, mas ou vc aluga o audio-guia, ou vc fica sem saber o que  eram aqueles palacios todos, hoje transformados em museus, alguns destinados a shows e convençoes e a maioria fechado para visitas.

E esse è um dos motivos pelos quais eu adorei ter visitado Salins les Bains primeiro: eu me surpreendi com a beleza das Salinas Reais e tinha uma boa base de conhecimento que fez toda a diferença na hora de entender as funçoes de cada estrutura. Arc et Senans nao foi sò “um rostinho bonito”.

Abadia de Fontenay

Abadia de Fontenay

Embora a nossa viagem para a Bourgogne tenha sido prevalentemente uma orgia gastronomica, entre as comilanças e as visitas ao produtores de vinho, de vez em quando incluiamos algo de “cultural”, para nao ficarmos com tanto peso na consciencia (bem que o peso podia se limitar à consciencia…).

Um desses passeios culturais foi um tour à Abadia de Fontenay, a apenas 60km de Dijon, fundada em 1118 por Sao Bernardo.

Diz a lenda que o objetivo da construçao dessa abadia era fazer com que a vida monastica seguisse as regras de Sao Benedito (do seculo VI) que propunha uma vida de “pobreza na solidao”.  Deve ser por isso que a abadia possui um ambiente muito austero, mas que transmite uma serenidade incrivel.

No auge da prosperidade, entre os seculos XII e XV, a abadia abrigava mais de 200 monges que eram completamente auto-suficientes.

Ali realmente nao falta espaço para a agricultura e para a criaçao de animais e, alem da igreja, dos dormitorios, do claustro, os monges ainda construiram um lugar para forjar o ferro extraido de uma colina ali nos arredores, um lugar para a produçao de pao, uma enfermaria, um canil, um pombal…

O declinio da abadia se deu quando mudaram os sistema de eleiçoes: os abades nao eram mais escolhidos pelos monges, mas atraves de aprovaçao real, atè que, durante a Revoluçao Francesa , restaram tao somente 12 monges vivendo em Fontenay.

A Abadia foi fechada e vendida e acabou virando uma fabrica de papel, atè que o genro do proprietario da fabrica e grande colecionador de obras de arte resolveu compra-la, demolir todos os “extras” construidos para a fabrica de papel, procurando deixa-la o mais proximo possivel do seu aspecto original e abri-la para visitaçao.

Atualmente a Abadia de Fontenay continua propriedade privada, foi inserida entre os monumentos considerados patrimonio da humanidade pela Unesco e è um bate-e-volta perfeito para se fazer a digestao num ambiente tranquilo.

Vinicolas-puxadinho

Vinicolas-puxadinho

Nas cidadezinhas da Bourgogne, a impressao que tive è que quase nao existem moradores, pois praticamente todas as casas sao “Domaine alguma coisa” e quando nòs agendamos as nossas visitas aos produtores nao imaginavamos que a visita fosse feita no quintal da casa deles.

Quando eu penso em “visitar vinicola” o que me vem em mente è sempre uma propriedade rural, meio longe de tudo, uma coisa meio romanceada e nao um “puxadinho” na casa de alguem, sem graça nenhuma.

Pois è… na Bourgogne, a maior parte das degustaçoes que fizemos foram nesses “puxadinhos”,  num esquema muito impessoal, onde eu me sentia meio que invadindo a casa de alguem, tanto que nem tirei fotos.

Sente o nivel: vc toca a campainha de uma casa, vem uma criança te receber no portao, em seguida ela sai correndo gritando pra chamar o pai. Depois de alguns minutos, o pai chega, te leva para o tal puxadinho onde meia duzia de garrafas estao prontas para serem degustadas, vc experimenta os vinhos e diz se quer comprar ou nao. Fim da degustaçao!

E’ uma transaçao comercial: ele quer vender o vinho, vc quer comprar e ponto final. Nenhum glamour.

Eu estava contentissima com a qualidade dos vinhos que degustavamos, mas estava descontente com essas visitas pouco interessantes, entao consegui convencer o marido a fazermos uma visita/degustaçao em um daqueles lugares bem turisticos.

Fomos visitar o Chateau de Pommard… Que lugar bonito!! E eles ainda promovem mostras de arte contemporanea que fazem do chateau um lugar ainda mais interessante! E sò!

Achei a visita guiada mediocre (e olha que ainda nao tinha feito a super visita completa do bed&breakfast). O guia explicou um pouco sobre a historia do chateau, disse meia duzia de obviedades sobre a produçao  do vinho (qq um que jà tenha visitado uma vinicola na vida vai reconhecer o discurso de sempre, nao precisa ser entendido no assunto), e experimentamos 4 vinhos diferentes.

Nada de muito memoravel e, para o meu gosto, o vinho era muito caro pelo que oferecia.  Nao è que o vinho fosse ruim, pelo contrario, era bom, mas nao valia o que custava!!

E falando em custos, as degustaçoes nos “puxadinhos” foram sempre gratuitas, jà visita com degustaçao do Chateau de Pommard custou 19,50 euros por pessoa…

Depois dessa experiencia, achei melhor seguir a risca a nossa listinha e visitar sò os produtores de “puxadinho” mesmo… Nao tem muito charme, mas se bebe muito bem, e a relaçao custo beneficio dos vinhos era otima, tanto que voltamos pra Italia com 4 caixas de vinho no porta malas.

B&B com uma degustaçao fantastica

B&B com uma degustaçao fantastica

Uma das minhas primeiras duvidas quando estavamos organizando a viagem para a Bourgogne era: onde è melhor montar a base: Dijon? Beaune? Ou algum lugar no meio dos vinhedos?

Quando perguntamos para a minha professora do curso sobre vinhos franceses qual seria o melhor lugar para dormirmos, ela nao pensou duas vezes pra responder e recomendou vivamente o Bed&Breakfast La Colombière em Vosne-Romanée. E por causa do seu entusiamo na recomendaçao, nòs nao pensamos duas vezes na hora de fazer a reserva.

La Colombière è um bed&breakfast de charme que pertence a Anne Gros, uma produtora de vinhos na Bourgogne que organiza visitas guiadas aos vinhedos e às suas adegas para os hospedes do B&B. E foi esse o principal motivo que levou a minha professora a recomendar o B&B, ela disse que DEVERIAMOS fazer a visita guiada mais completa, que è absolutamente imperdivel! Em assim sendo, reservamos a visita guiada completa tb…

Adorei tudo! Nao poderiamos ter escolhido um lugar melhor para ficar! A localizaçao do b&b è otima! Vosne-Romanèe fica no meio do caminho entre Beaune e Dijon, entao os deslocamentos eram simples e rapidos quando queriamos um pouco de infra-estrutura e, ao mesmo tempo estavamos hospedados na terra do mitico Romanèe Conti!

Nosso quarto no “La Colombière” era uma graça: espaçoso, arejado e bem charmoso, um daqueles lugares onde se ve a preocupaçao com os detalhes. O cafè da manha era simples e honesto com paes, geleias caseira, manteiga, cafè, leite, iogurte, suco…

Mas o que valeu mesmo a pena foi a tal visita completa que a professora tinha sugerido. O tour começou com uma caminhada entre os vinhedos, com um mapa na mao, para que pudessemos entender o complicado territorio da Bourgogne. E nòs iamos passando por diversos “crus” e a guia ia explicando as diferenças dos tipos de solo, como se faz a poda das videiras, a exposiçao ao sol…

Em seguida fomos visitar a “produçao” do Domaine Anne Gros e ali tivemos a oportunidade de experimentar os vinhos que ainda nao estavam prontos, tirados dos barris de carvalho com uma pipeta. Um deles ainda em fermentaçao malolatica!  E a nossa excelente guia mostrando na pratica a influencia do territorio que tinhamos acabado de ver.

Foi uma aula espetacular! Por mim, a visita poderia ter terminado ali mesmo que eu jà estava mais do que satisfeita, mas depois disso, tivemos a degustaçao dos vinhos jà prontos e mais uma super aula sobre o desenvolvimento e envelhecimento dos vinhos  na garrafa.

E para terminar com chave de ouro, ainda ganhamos de presente as 4 garrafas que haviamos degustado e uma copia do mapa da Bourgogne usado no passeio!

Bourgogne: vinhos e territorio

Bourgogne: vinhos e territorio

Uma coisa è certa: quem quiser visitar a Bourgogne deve ter um minimo de interesse em vinhos, senao sobra muito pouco para se ver/visitar na regiao.

E vou ser sincera: esse pouco que sobra, na minha opiniao, vale a visita sò se vc estiver de passagem. Se o objetivo è visitar uma “paisagem vinicola” sem se importar com os vinhos produzidos, acho a Toscana muito mais bonita!

Mas se o objetivo è o vinho propriamente dito, aì a Bourgogne se transforma num dos lugares mais fascinantes do mundo, com vinhos incriveis produzidos num territorio que sò os habitantes do lugar conseguem entender, de tao complexa e variada que è a formaçao do solo e a divisao dos vinhedos.

Pois bem, os vinhos da Bourgogne sao produzidos basicamente com 2 tipos de uvas: a Pinot Noir para os tintos e a Chardonnay para os brancos.

Os vinhos brancos da Bourgogne que experimentei sao muito bons, mas nao è por causa deles que a Bourgogna è famosa…

A Pinot Noir è considerada uma das uvas tintas mais nobres do mundo (os italianos colocam a uva Nebbiolo -leia-se Barolo – no mesmo patamar de nobreza) e tambem uma das mais dificeis de vinificar, pois a qualidade do vinho produzido varia muito de safra para safra, de lugar para lugar.

Dizem que na Bourgogne nao produzem pinot noir, mas “limitam-se a utilizar essa uva para exprimir a geografia local, as caracteristicas de cada localidade onde foi plantada”.

Alguem poderia me dizer: papo de enochato! Pois è, eu tb pensei nisso quando me vieram com essa historia… Mas uma coisa è certa, eu tive a oportunidade de visitar uma vinicola e pude experimentar 4 vinhos que ainda nao estavam prontos, retirados com uma pipeta do barril de carvalho.

Eram todos 100% Pinot Noir, foram todos colhidos em 2010 e todos estavam nos barris hà um ano e todos foram vinificados da mesma maneira (segundo o produtor). A unica diferença entre eles era o territorio onde as uvas foram plantadas.

Mesmo sem identficar nenhum aroma de frutas vermelhas ou retrogosto de qq coisa (ainda estou no inicio da minha vida enologica), a diferença dos cheiros e gostos desses vinhos era tao evidente e tao marcante que tive que me render ao papo de enochato sobre o territorio da Bourgogne.

Se os vinhos foram feitos do mesmo jeito e com a mesma uva, nao consigo encontrar outra explicaçao para tamanha diversidade no paladar que nao seja o territorio onde foram plantadas.

Acontece que o territorio da Bourgogne è uma complicaçao enorme. A regiao mais importante, enologicamente falando, è a chamada Cote d”Or, que compreende a regiao entre o sul de Dijon atè alguns quilometros ao sul de Beaune.

A Cote d’Or por sua vez è dividida em Cote de Beaune (mais ao sul) e Cote de Nuits (no norte) e è nesta ultima onde està localizada a maior parte dos caresimos vinhos Grands Crus da Bourgogne.

A confusao è grande, pq a Bourgogne possui um territorio muito fragmentado, com uma variedade de solo muito grande que muda numa distancia de poucos metros e, com isso, seus 27 mil hectares sao divididos em mais de mil “crus” diferentes.

Tà e o que è um “cru”? Segundo as informaçoes da minha professora, um cru nada mais è do que um pedaço de territorio no qual as uvas adquirem uma determinada caracteristica de qualidade. Um terreno feito de areia vai produzir um vinho com um gosto diferente de umvinho produzido num terreno cheio de pedras, por exemplo.

Isso significa que cada cru da Bourgogne è capaz de produzir um vinho identificavel  por aquela  caracteristica tipica do territorio onde a uva foi plantada e, conforme o territorio e a qualidade do vinho produzido, ele serà um Grand Cru, um Premier Cru, etc…

Pra piorar a confusao um unico cru pode pertencer a um ou mais proprietarios. Pra citar o exemplo mais famoso: Clos de Vougeot è um cru de mais ou menos 50 hectares divididos em mais de 80 proprietarios. Tem gente que è proprietaria de apenas poucas filas de videiras  numa plantaçao.

As cidadezinhas entre Dijon e Beaune possuem milhares de produtores/enotecas que oferecem seus vinhos num esquema parecido com aqueles restaurantes a beira-mar: um do lado do outro,  numa sequencia interminavel, e todos tentando te convencer a entrar ali e nao no vizinho.

O ideal è ir jà documentado, sabendo mais ou menos quais produtores visitar, pq a oferta è muito grande e tem de tudo. Vale lembrar que a maior parte das visitas serao feitas a produtores de vinho, que estao interessados em vender seu produto, e nao um passeio turistico.

O objetivo da visita deve ser “ir atè um lugar feio, normalmente a casa do produtor e degustar o vinho para comprà-lo ou nao”. (E è importante mandar um email antes para marcar o dia e a hora e garantir a disponibilidade do produtor.)

Se o objetivo for “visitar um belissimo castelo com um guia que explica a produçao e fazer uma degustaçao no final”, o melhor è ir pra Toscana.

A minha professora do curso de vinhos franceses promovidos pela AIS sugeriu alguns produtores que, segundo ela, possuem uma excelente relaçao custo-beneficio, sao eles:

  • Marsannay la Cote: Domaine Bruno Clair
  • Vosne-Romanèe: Domaine Anne Gros, Domaine Confuron Cotetidot, Domaine de la Vougeraie
  • Mersault: Domaine Albert Grivault
  • Puligny Montrachet: Domaine Etienne Sauzet
  • Pommard: Domaine de Courcel
  • Volnay: Domaine Hubert de Montille
  • Givry: Domaine Joblot
  • Vinzelles: Domaine de la Soufrandière

Bourgogne: o roteiro

Bourgogne: o roteiro

Na realidade era para eu estar escrevendo sobre a Libia, mas nossa viagem toda planejada – e paga – para a terra do ditador com um nome que nao sei como se escreve acabou sendo adiada por motivos obvios.

O problema maior è que qualquer viagem turistica para a Libia exige uma agencia de turismo (senao nao liberam o visto), e por isso tivemos que esperar atè o ultimo minuto para poder mudar de destino sem perder dinheiro. Se a agencia cancela a viagem, ela nos reembolsa; se nòs cancelamos a viagem, pagamos a multa!

Pois bem, a agencia cancelou a viagem com um mes de antecedencia e nòs tinhamos 10 dias livres para viajar.  Com apenas 1 mes de antecedencia e com feriados no meio, os preços dos voos para qualquer lugar eram impraticavelmente caros e os destinos empacotados oferecidos pela agencia nao nos satisfaziam (pra variar).

Decidimos entao ir para a Bourgogne: poderiamos ir de carro a partir de Milao; tinhamos acabado de fazer um curso sobre vinhos franceses (pois è, eu me rendi ao mundo do vinho e comecei a fazer o curso da Associazione Italiana Sommeliers) e a professora, francesa, apaixonada por vinhos e pela França tinha se mostrado super disponivel para ajudar num roteiro por essa famosa regiao vinicola.

Mandamos um email para ela, meio na cara de pau, e eis que ela nos manda dicas e mais dicas de vinicolas, vinhos, degustaçoes e inclusive hoteis e passeios interessantes na regiao. Simplesmente fantastico!

O unico “detalhe” è que 10 dias è tempo demais para se ficar sò na Bourgogne, por mais que a gente goste de vinho. Entao acabamos ampliando um pouco o territorio a ser explorado.

Resolvemos ficar 4 dias na Bourgogne propriamente dita, basicamente para o turismo enogastronomico. Outros 4 dias seriam usados para passear pelos arredores da regiao, numa tentativa frustrada de se fazer um turismo menos guloso e mais cultural. (Atè conseguimos fazer uns programas mais culturais, mas o “menos guloso” foi impossivel!) e reservamos 2 dias para ir e voltar, jà que estariamos de carro e a viagem nao è muito curta.

Nosso roteiro ficou assim: saimos de Milao bem cedinho e dirigimos 9 horas atè Saint Savin e dali fomos voltando pra Milao com paradas em Bourges, Vezelay, Montbard, Vosne-Romanée, Arc et Senans, Besançon e as cidades dos relojoeiros na Suiça (La Chaux de Fonds e Le Locle), de onde dirigimos 4 horas atè chegarmos em casa em Milao.

Nos proximos posts pretendo falar um pouco sobre cada um desses lugares e repassar as dicas da professora francesa, caso alguem se interesse por turismo enogastronomico.

Champagne

Champagne

Acho que jà comentei em outros lugares que o marido è sommelier e que està sempre me levando para degustaçoes e visitas em vinicolas. Por causa disso, nao sou exatamente uma “analfabeta” no mundo do vinho, mas acabei me tornando uma “leiga bem informada”, ou entao, em bom portugues, virei uma enochata.

Nas visitas às vinicolas que faço quando estou com ele, normalmente somos recebidos pelo enologo que explica como o vinho è produzido, mas usando termos tecnicos e viajando em teorias e escolas de pensamento sobre a filtragem ou nao do vinho…

E no final experimentamos praticamente toda a produçao da vinicola, do vinho base mais simples ao top de linha, e a discussao tecnica continua na taça, com direito a consideraçoes sobre a acidez, os taninos, o teor alcoolico, pq o ano X foi melhor que o ano Y, a umidade, a temperatura, o terreno, bla, bla, bla…

Embora eu entre muda e saia calada de toda essa discussao, acho tudo super interessante e estou sempre aprendendo coisas novas, principalmente, pq o marido escolhe a dedo quais vinicolas visitar. Antes de decidir, ele faz todo um estudo sobre o produtor, o que os guias e a critica andaram dizendo sobre os vinhos, e por ai vai… 

Mas pq eu expliquei tudo isso? Pq a regiao de Champagne foi a minha primeira vez em vinicolas sem a presença do marido! Reunimos um grupo de amigas que moram espalhadas pela Europa para uma “viagem mulherzinha”  a Paris e acabamos indo parar em Reims.

È claro que meia duzia de mulheres juntas nao estavam interessadas nem em aspectos tecnicos nem na qualidade e/ou preço do champagne. O objetivo era simplesmente visitar algumas das vinicolas mais famosas e tomar muitas bolhinhas. Em assim sendo, apos uma votaçao democratica, acabamos escolhendo a Veuve Clicquot, a Pommery e a Mumm.

Começamos com a Mumm, e ali a visita custa de 10 a 20 euros dependendo do que se quer beber no final, do champagne mais barato ao mais caro. Eramos sò nos e a visita começou com um um filminho de uns 10 minutos sobre a historia da vinicola e, em seguida, vem uma funcionaria que nos leva a adega e vai explicando como a bebida è produzida ali.

Foi a melhor e mais didatica explicaçao do dia. Alem de mostrar com graficos e maquetes as uvas e suas caracteristicas, explicou de modo muito acessivel como è feita a fermentaçao, è feita a remuage, a eliminaçao de residuos do champagne….  Mas a adega propriamente dita è bonita mas nao è muito cinematografica como as outras.

Como haviamos decidido de antemao que iriamos experimentar 2 champagnes diversas: a mais simples e uma Grand Cru, tivemos como comparar a diferença entre elas! E que diferença!

Depois da Mumm, fomos visitar a Veuve Clicquot. A visita custava 15 euros e dava direito à degustaçao final, sem especificar mais nada. Nos juntamos a um grupo de umas 10 pessoas e ouvimos pela segunda vez todo o bla, bla, bla sobre a produçao de champagne, mas com uma linguagem muito mais simples e com muito menos detalhes. A explicaçao da funcionaria da Veuve Clicquot foi bem boa tb, mas tinha aquela pontinha de “auto-promoçao” e arrogancia que cansava.

A visita valeu pela adega. Sao quilometros e quilometros de tuneis escavados em giz (calcario) pelos romanos hà 2000 anos e as garrafas colocadas estrategicamente para preservar a decoraçao e a harmonia do ambiente. Um show! Uma pena que a degustaçao tenha sido uma tristeza só.

Nos deram uma unica tacinha da Veuve Clicquot mais barata e nao existia sequer a possibilidade de se aproximar de uma La Grande Dame. Dava a impressao de que as paredes diziam: “vcs sao turistas, nao entendem nada de champagne e bebem qq porcaria! Por isso, nao me façam desperdiçar minha obra-prima com vcs!”

E finalmente fomos visitar a Pommery. Como na Mumm, existiam varios preços de visitas dependendo do que se quer beber no final e variava entre 12 e 25 euros. No grupo eramos nòs e mais um casal e, apesar de interessante, a visita foi “mais do mesmo”: ouvimos pela terceira vez toda a ladainha de como è produzido o champagne e a adega, apesar de ser tb uma daquelas em tuneis escavados no giz, nao impressionou tanto pois nao era a primeira vez que viamos uma adega assim e a decoraçao nao era “chic” como a da Veuve Clicquot.

Como todas essas vinicolas sao super organizadas para receber turistas e tem sempre o mesmo discurso padrao para a visita, nao vale a pena visitar mais do que 2. Se soubessemos disso antes, teriamos economizado o tempo em uma delas para passear por Reims, que me pareceu, de relance, muito encantadora. Fica como desculpa para um novo encontro mulherzinha! 😉

Chateau Lafite Rothschild

Chateau Lafite Rothschild

Pra quem tem um namorado sommelier (meu caso!), uma viagem a Bordeaux só será uma viagem a Bordeaux se no roteiro constar uma visita a alguma vinícola… Não me lamento, afinal, Bordeaux é a pátria de alguns dos melhores vinhos do mundo.

Ainda nos preparativos da viagem, a tentação de conhecer um produtor renomado era enorme, no entanto, começamos a procurar um produtor anônimo, pois as vinícolas mais famosas possuem preços proibitivos para os pobre mortais.

Nos guias de viagem sobre Bordeaux, é possível encontrar uma infinidade de produtores de vinho que abrem as portas para visitação, mas, com algumas diferenças de “procedimento” em relação à Itália; entre elas descobri que uma boa parte das vinícolas de Bordeaux cobra uma taxa de uns 5 a 10 euros por pessoa pela visita.

(Nota: Eu acho o fim do mundo essas taxas, não pelo valor, mas pelo simples fato de existirem. Na minha concepção, se estou visitando um produtor de qualquer coisa, é porque estou interessada em conhecer seu produto e, se gostar, pago o preço de mercado para adquiri-lo. Pagar a um produtor para conhecer seu produto vai contra a minha religião. Ainda bem que na Itália essas taxas são bem raras).

Bom, o namorado sommelier nem deu bola para os guias de viagens e foi logo comprando um guia de vinhos franceses (o Hachette) para escolher os melhores produtores “econômicos” da região de Bordeaux e assim definir a vinícola a ser visitada e os vinhos a serem adquiridos.

Acontece que, além da qualidade dos vinhos e de uma faixa de preços indicativa, o Hachette fornece também uma informação sobre uma outra “diferença de procedimentos” em relação à Itália: a maior parte das vinícolas em Bordeaux não vende vinhos diretamente ao consumidor! Você pode até visitar a vinícola, mas se quiser adquirir alguma coisa, deve se dirigir à enoteca mais próxima! Estranho, mas funciona assim…

Em assim sendo, fomos verificar rapidinho de que modo as vinícolas mais famosas realizavam suas vendas. Se fosse nesse mesmo esquema de não vender diretamente ao consumidor, seria perfeito, pois não ficaríamos (o namorado não ficaria, quero dizer) tentados a gastar horrores para adquirir uma única garrafa.

E não é que a nossa primeira opção, a lendária Chateau Lafite Rothschild, é aberta a visitação, faz visitas em inglês, não vende nada diretamente ao consumidor e nem cobra nada pela visita! Basta mandar um email agendando a data e voilá! A lenda se torna realidade!

Eu não entendo nada de vinhos, mas nunca tinha visitado uma vinícola tão bonita e tão automatizada! Uma convivência mais do que harmoniosa entre o clássico e o moderno.

A única coisa feita a mão por ali é a colheita, pois ainda não inventaram uma máquina que substitua a sensibilidade humana na hora de selecionar as melhores uvas. Depois de colhidas, passam de uma máquina a outra, que controlam tudo, desde a fermentação até o engarrafamento.

Uma coisa curiosa que o guia nos contou é que a filtragem é feita com claras de ovo. Eles colocam essas claras no vinho, porque elas “empurram” os sedimentos para o fundo do barril para a decantação e também ajudam a dar “elegância” ao vinho. Se essa informação não me tivesse sido dada pelo guia do Chateau, eu acho que não acreditaria… que nojo!

Já engarrafado, o vinho fica armazenado na parte mais bonita do Chateau,a adega escavada na rocha, debaixo do castelo. São corredores e salas quase escuros, iluminados tão somente por lâmpadas que imitam velas, temperatura constante e muita umidade no ar, com direito a mofo pelas paredes e aquele clima de castelo mal assombrado dos filmes, principalmente a parte mais antiga, onde estão armazenadas garrafas de vinho produzidos desde 1797, que, segundo o guia, ainda estão boas para o consumo… Acredite se quiser!

E finalmente a degustação! O guia abriu uma garrafa de Lafite Rothschild de 1995. Até quem não entende nada de vinho reconhece que aquele é um “Senhor Vinho” e percebe o motivo pelo qual virou uma lenda entre os amantes do vinho. Mas… precisava custar tão caro?

Numa enoteca no centro de Bordeaux, a mesma garrafa que experimentamos no Chateau era vendida a “módicos” 600 euros! Se eu for considerar uma média de 6 taças de vinho por garrafa, significa que, na vinícola, eu bebi 100 euros de vinho! Absurdo, né? Apesar de ser um vinho fantástico, eu não acho que ele vale o que custa! Mas essa é a humilde opinião de uma leiga no assunto…

Uma pena que não tirei muitas fotografias do Chateau… Eu estava tão empolgada com a visita, que me esqueci completamente da máquina fotográfica…

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