Uma coisa è certa: quem quiser visitar a Bourgogne deve ter um minimo de interesse em vinhos, senao sobra muito pouco para se ver/visitar na regiao.
E vou ser sincera, esse pouco que sobra, na minha opiniao, vale a visita sò se vc estiver de passagem. Se o objetivo è visitar uma “paisagem vinicola” sem se importar com os vinhos produzidos, acho a Toscana muito mais bonita!
Mas se o objetivo è o vinho propriamente dito, aì a Bourgogne se transforma num dos lugares mais fascinantes do mundo, com vinhos incriveis produzidos num territorio que sò os habitantes do lugar conseguem entender, de tao complexa e variada que è a formaçao do solo e a divisao dos vinhedos.

Pois bem, os vinhos da Bourgogne sao produzidos basicamente com 2 tipos de uvas: a Pinot Noir para os tintos e a Chardonnay para os brancos.
Os vinhos brancos da Bourgogne que experimentei sao muito bons, mas nao è por causa deles que a Bourgogna è famosa…
A Pinot Noir è considerada uma das uvas tintas mais nobres do mundo (os italianos colocam a uva Nebbiolo -leia-se Barolo - no mesmo patamar de nobreza) e tambem uma das mais dificeis de vinificar, pois a qualidade do vinho produzido varia muito de safra para safra, de lugar para lugar.

Dizem que na Bourgogne nao produzem pinot noir, mas “limitam-se a utilizar essa uva para exprimir a geografia local, as caracteristicas de cada localidade onde foi plantada”.
Alguem poderia me dizer: papo de enochato! Pois è, eu tb pensei nisso quando me vieram com essa historia… Mas uma coisa è certa, eu tive a oportunidade de visitar uma vinicola e pude experimentar 4 vinhos que ainda nao estavam prontos, retirados com uma pipeta do barril de carvalho.
Eram todos 100% Pinot Noir, foram todos colhidos em 2010 e todos estavam nos barris hà um ano e todos foram vinificados da mesma maneira (segundo o produtor). A unica diferença entre eles era o territorio onde as uvas foram plantadas.

Mesmo sem identficar nenhum aroma de frutas vermelhas ou retrogosto de qq coisa (ainda estou no inicio da minha vida enologica), a diferença dos cheiros e gostos desses vinhos era tao evidente e tao marcante que tive que me render ao papo de enochato sobre o territorio da Bourgogne.
Se os vinhos foram feitos do mesmo jeito e com a mesma uva, nao consigo encontrar outra explicaçao para tamanha diversidade no paladar que nao seja o territorio onde foram plantadas.
Acontece que o territorio da Bourgogne è uma complicaçao enorme. A regiao mais importante, enologicamente falando, è a chamada Cote d”Or, que compreende a regiao entre o sul de Dijon atè alguns quilometros ao sul de Beaune.

A Cote d’Or por sua vez è dividida em Cote de Beaune (mais ao sul) e Cote de Nuits (no norte) e è nesta ultima onde està localizada a maior parte dos caresimos vinhos Grands Crus da Bourgogne.
A confusao è grande, pq a Bourgogne possui um territorio muito fragmentado, com uma variedade de solo muito grande que muda numa distancia de poucos metros e, com isso, seus 27 mil hectares sao divididos em mais de mil “crus” diferentes.
Tà e o que è um “cru”? Segundo as informaçoes da minha professora, um cru nada mais è do que um pedaço de territorio no qual as uvas adquirem uma determinada caracteristica de qualidade. Um terreno feito de areia vai produzir um vinho com um gosto diferente de umvinho produzido num terreno cheio de pedras, por exemplo.
Isso significa que cada cru da Bourgogne è capaz de produzir um vinho identificavel por aquela caracteristica tipica do territorio onde a uva foi plantada e, conforme o territorio e a qualidade do vinho produzido, ele serà um Grand Cru, um Premier Cru, etc…

Pra piorar a confusao um unico cru pode pertencer a um ou mais proprietarios. Pra citar o exemplo mais famoso: Clos de Vougeot è um cru de mais ou menos 50 hectares divididos em mais de 80 proprietarios. Tem gente que è proprietaria de apenas poucas filas de videiras numa plantaçao.
As cidadezinhas entre Dijon e Beaune possuem milhares de produtores/enotecas que oferecem seus vinhos num esquema parecido com aqueles restaurantes a beira-mar: um do lado do outro, numa sequencia interminavel, e todos tentando te convencer a entrar ali e nao no vizinho.
O ideal è ir jà documentado, sabendo mais ou menos quais produtores visitar, pq a oferta è muito grande e tem de tudo. Vale lembrar que a maior parte das visitas serao feitas a produtores de vinho, que estao interessados em vender seu produto, e nao um passeio turistico.
O objetivo da visita deve ser “ir atè um lugar feio, normalmente a casa do produtor e degustar o vinho para comprà-lo ou nao”. (E è importante mandar um email antes para marcar o dia e a hora e garantir a disponibilidade do produtor.)
Se o objetivo for “visitar um belissimo castelo com um guia que explica a produçao e fazer uma degustaçao no final”, o melhor è ir pra Toscana.
A minha professora do curso de vinhos franceses promovidos pela AIS sugeriu alguns produtores que, segundo ela, possuem uma excelente relaçao custo-beneficio, sao eles:
- Marsannay la Cote: Domaine Bruno Clair
- Vosne-Romanèe: Domaine Anne Gros, Domaine Confuron Cotetidot, Domaine de la Vougeraie
- Mersault: Domaine Albert Grivault
- Puligny Montrachet: Domaine Etienne Sauzet
- Pommard: Domaine de Courcel
- Volnay: Domaine Hubert de Montille
- Givry: Domaine Joblot
- Vinzelles: Domaine de la Soufrandière