Pra quem tem um namorado sommelier (meu caso!), uma viagem a Bordeaux só será uma viagem a Bordeaux se no roteiro constar uma visita a alguma vinícola… Não me lamento, afinal, Bordeaux é a pátria de alguns dos melhores vinhos do mundo.
Ainda nos preparativos da viagem, a tentação de conhecer um produtor renomado era enorme, no entanto, começamos a procurar um produtor anônimo, pois as vinícolas mais famosas possuem preços proibitivos para os pobre mortais.
Nos guias de viagem sobre Bordeaux, é possível encontrar uma infinidade de produtores de vinho que abrem as portas para visitação, mas, com algumas diferenças de “procedimento” em relação à Itália; entre elas descobri que uma boa parte das vinícolas de Bordeaux cobra uma taxa de uns 5 a 10 euros por pessoa pela visita.
(Nota: Eu acho o fim do mundo essas taxas, não pelo valor, mas pelo simples fato de existirem. Na minha concepção, se estou visitando um produtor de qualquer coisa, é porque estou interessada em conhecer seu produto e, se gostar, pago o preço de mercado para adquiri-lo. Pagar a um produtor para conhecer seu produto vai contra a minha religião. Ainda bem que na Itália essas taxas são bem raras).
Bom, o namorado sommelier nem deu bola para os guias de viagens e foi logo comprando um guia de vinhos franceses (o Hachette) para escolher os melhores produtores “econômicos” da região de Bordeaux e assim definir a vinícola a ser visitada e os vinhos a serem adquiridos.
Acontece que, além da qualidade dos vinhos e de uma faixa de preços indicativa, o Hachette fornece também uma informação sobre uma outra “diferença de procedimentos” em relação à Itália: a maior parte das vinícolas em Bordeaux não vende vinhos diretamente ao consumidor! Você pode até visitar a vinícola, mas se quiser adquirir alguma coisa, deve se dirigir à enoteca mais próxima! Estranho, mas funciona assim…
Em assim sendo, fomos verificar rapidinho de que modo as vinícolas mais famosas realizavam suas vendas. Se fosse nesse mesmo esquema de não vender diretamente ao consumidor, seria perfeito, pois não ficaríamos (o namorado não ficaria, quero dizer) tentados a gastar horrores para adquirir uma única garrafa.
E não é que a nossa primeira opção, a lendária Chateau Lafite Rothschild, é aberta a visitação, faz visitas em inglês, não vende nada diretamente ao consumidor e nem cobra nada pela visita! Basta mandar um email agendando a data e voilá! A lenda se torna realidade!

Eu não entendo nada de vinhos, mas nunca tinha visitado uma vinícola tão bonita e tão automatizada! Uma convivência mais do que harmoniosa entre o clássico e o moderno.
A única coisa feita a mão por ali é a colheita, pois ainda não inventaram uma máquina que substitua a sensibilidade humana na hora de selecionar as melhores uvas. Depois de colhidas, passam de uma máquina a outra, que controlam tudo, desde a fermentação até o engarrafamento.
Uma coisa curiosa que o guia nos contou é que a filtragem é feita com claras de ovo. Eles colocam essas claras no vinho, porque elas “empurram” os sedimentos para o fundo do barril para a decantação e também ajudam a dar “elegância” ao vinho. Se essa informação não me tivesse sido dada pelo guia do Chateau, eu acho que não acreditaria… que nojo!
Já engarrafado, o vinho fica armazenado na parte mais bonita do Chateau,a adega escavada na rocha, debaixo do castelo. São corredores e salas quase escuros, iluminados tão somente por lâmpadas que imitam velas, temperatura constante e muita umidade no ar, com direito a mofo pelas paredes e aquele clima de castelo mal assombrado dos filmes, principalmente a parte mais antiga, onde estão armazenadas garrafas de vinho produzidos desde 1797, que, segundo o guia, ainda estão boas para o consumo… Acredite se quiser!

E finalmente a degustação! O guia abriu uma garrafa de Lafite Rothschild de 1995. Até quem não entende nada de vinho reconhece que aquele é um “Senhor Vinho” e percebe o motivo pelo qual virou uma lenda entre os amantes do vinho. Mas… precisava custar tão caro?
Numa enoteca no centro de Bordeaux, a mesma garrafa que experimentamos no Chateau era vendida a “módicos” 600 euros! Se eu for considerar uma média de 6 taças de vinho por garrafa, significa que, na vinícola, eu bebi 100 euros de vinho! Absurdo, né? Apesar de ser um vinho fantástico, eu não acho que ele vale o que custa! Mas essa é a humilde opinião de uma leiga no assunto…
Uma pena que não tirei muitas fotografias do Chateau… Eu estava tão empolgada com a visita, que me esqueci completamente da máquina fotográfica…