Category Archives: Gastronomia

Antica Macelleria Cecchini

Eu sou uma comilona assumida e amo de paixao a comida italiana, mas tem uma coisa que sempre me decepcionou na culinaria por aqui è a carne. Nao adianta, carne com gosto de carne sò no Brasil mesmo (na Argentina tb, mas eu nao sou muito chegada nos cortes argentinos).

Mas como uma boa carnivora expatriada, que sente falta dos churrascos ou mesmo de um bife  de vez em quando, eu estou sempre à procura de restaurantes que possam matar a minha saudade de carne. Um que aguçou a minha curiosidade foi a Officina della Bistecca, da Antica Macelleria Cecchini em Panzano na Toscana.

Na realidade, o lugar nao è exatamente um restaurante; è um antigo açougue, cujo proprietario, Dario Cecchini, hà mais de 30 anos desenvolve a arte do corte e do cozimento perfeito da “Sua Majestade, a Bistecca alla Fiorentina”. No andar de baixo, ainda funciona o açougue e no andar de cima foram colocadas as mesas e a churrasqueira para a preparaçao da carne.

O esquema da Officina della Bistecca è um pouquinho diferente de um restaurante normal: o menu è fixo e custa 50 euros por pessoa e tem horario certo pra começar, pois eles servem todo mundo ao mesmo tempo e sao 4 pratos de carne, mais acompanhamentos que sao servidos em sequencia, para todos os presentes.

Excluindo o primeiro prato, o sushi del Chianti, que è uma carne crua temperada, todo o resto è carne na brasa (mal passada, è claro!) e mais nada! Nenhum tipo de tempero è colocado, nem sal!

Eles recomendam experimentar a carne sem tempero e, no maximo, acrescentar um fio de azeite de oliva, para “abençoa-la”, mas colocam a disposiçao sal, pimenta e um temperinho de ervas para quem quiser.

Que carne M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-A! E sem tempero! Nao vejo a hora de poder voltar e levar uma garrafa de vinho (como sugerido pelo site)  à altura, pois o vinho que eles servem ali nao chega aos pès da carne.

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Boia-fria por um dia: participando da vendemmia

O mes de setembro è o mes da colheita das uvas na Italia, a chamada “vendemmia” e è normalmente o periodo em que os produtores de vinho estao mais ocupados; muitos deles sequer aceitam visitas de turistas nessa època.

Em compensaçao existem alguns produtores que aproveitam a època da vendemmia justamente para atrair mais turistas, permitindo que curiosos como eu participem da colheita da uva, e veja na pratica como o vinho è produzido.

Marido se recusou a pagar para trabalhar e ainda por cima beber vinho ruim, entao esse final de semana fui com uma amiga participar da vendemmia em uma vinicola localizada perto de Pavia, a uma hora de Milao mais ou menos.

Nao posso tirar a razao do marido: a brincadeira custou 30 euros por pessoa, mas estava incluido um cafè da manha simples antes iniciarmos os trabalhos e um almoço depois da nossa colheita. E è claro que a qualidade do vinho nao era o maximo, um produtor de um vinho excelente jamais permitiria que curiosos colhessem suas uvas, mas eu estava mais interessada na colheita do que na qualidade do vinho.

Saimos de Milao por volta das 9h da manha, chegamos as 10h na vinicola (que tb funciona como agriturismo) e fomos recebido com um cafè da manha simples: cafè, pao, biscoito e geleia. Em seguida, subimos num trator e là fomos nòs para o meio dos vinhedos com os empregados da vinicola para a tal colheita.

Com a tesoura em maos, foi diversao pura! Para cada cacho de uva que colhiamos, tiravamos umas 20 fotos (acho a paisagem com vinhedos maravilhosa!) e comiamos mais uvas do que cortavamos, estavam deliciosamente doces!  E tudo isso regado a muito bate-papo com os empregados da vinicola que nos contavam causos da rotina do trabalho deles.

Mesmo nesse clima super descontraido e de pouco trabalho, enchemos bem umas 8 caixas de uvas no pouco tempo que ficamos ali. Juntamos no trator as nossas uvas com as uvas dos empregados que estavam trabalhando seriamente numa outra regiao do vinhedo – afinal o lugar è uma vinicola e alguem precisa trabalhar de verdade por ali – e voltamos para a vinicola.

Quando eu achava que a diversao jà tinha acabado, fomos convidados para ”ajudar” a espremer as uvas para a fabricaçao do vinho. Eu jà estava esperando encontrar aquele tacho gigante com pessoas descalças dançando a tarantela enquanto pisavam nas uvas, mas os tempos sao outros…

Tem uma maquina super moderna que faz todo o serviço pesado: vc joga as uvas nela e de um lado saem os caules dos cachos limpinhos e do outro, um cano leva as uvas para grandes barris de aço para jà começar a fermentaçao. A nossa “ajuda” foi simplesmente jogar as uvas que tinhamos colhido dentro da tal maquina. Apesar do pouco glamour, foi interessante ver a maquina funcionando.

Em seguida fomos almoçar; serviram uma comida caseira bem feitinha: antipasto com salames, como primeiro prato tinha dois tipos de risotto e um prato de pasta e fagioli, como segundo prato, carne com batata e a sobremesa, sem esquecer do vinho, è claro. Nao, esse nao era o menu para que nòs escolhessemos um prato, era tudo isso por pessoa!

Com a barriga mais do que cheia, voltamos ao nosso tour enologico para vermos de perto como se desenvolve a fermentaçao da uva. Foi o maximo! Pudemos experimentar o mosto recem feito com as nossas uvas e tambem alguns vinhos feitos com uvas colhidas anteriormente em fase de fermentaçao alcoolica e em fase de fermentaçao malolatica.

Sinceramente, nao consigo entender como eu posso ficar tao feliz experimentando uma coisa tao ruim, porque convenhamos, vinho que nao està pronto ainda è horrivel! E vinho meia boca que nao està pronto consegue ser ainda pior! Devem ser as tais razoes que a propria razao desconhece…

Chegamos em casa por volta das 17h bem contentes com o passeio, mas è  uma daquelas experiencias que se tem uma vez na vida e nunca mais…

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Stiva Veglia

Quando eu estava tentando convencer o namorado a ir a Vaduz, eis que ele me responde com um: “OK! Mas antes vamos almoçar com calma num lugar legal!”

Desesperei com a resposta. Almoço de domingo para um italiano costuma durar uma eternidade, principalmente se o almoço é “com calma” e “num lugar legal”… Por causa desse almoço, eu corria o sério risco de não visitar Liechtenstein!

Por outro lado… quando o namorado diz que quer almoçar num lugar legal… o lugar é legal de verdade! Por isso, como uma boa gulosa que sou, assumi o risco e aceitei as condições do acordo sem reclamar!

Fomos parar num restaurante chamado Stiva Veglia, para provarmos a autentica e tipica “comida caseira alpina”. Esse restaurante fica em Schnaus, uma cidadezinha minuscula, encravada no meio das montanhas, e localizada na parte da Suiça que fala romanche.

Nunca tinha ouvido esse tal romanche e, pra mim, pareceu uma mistura de italiano com alemao. Dava pra entender algumas coisas, outras eu nao tinha ideia do que se tratava e, por isso, a escolha do prato foi meio na base do achometro.

Pedimos a especialidade da casa, que era uma deliciosa e macia carne de caça (não descobri qual foi o animal caçado, acho que era cervo) com um molho de frutas vermelhas e batatas rosti crocantissimas.

Como ainda estavamos em territorio suiço, o almoço era constituido de apenas 1 prato e nem foi tão demorado assim. Mas… depois de comer maravilhosamente bem nesse restaurante:

stiva-veglia1

 

stiva-veglia2

localizado nessa cidade:

stiva-veglia3

confesso que nem me lembrava que queria visitar Liechtenstein… Mas isso eu não disse ao namorado! Ainda bem que ele se lembrou e cumpriu sua parte do acordo sem que eu precisasse dizer nada…

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Vodka e caviar

Eis duas coisas que nunca consegui achar graça: vodka e caviar. A vodka eu sò dava conta de beber se viesse misturada com alguma outra coisa, tipo caipiroska, mas se posso escolher, prefiro a boa e velha cachaça na bebida.

Com o caviar eu tinha uma certa implicancia, pois ou era aquela coisa horrorosa de baixa qualidade que colocam aos montes em cima de torradas (quem nunca foi a uma festa de casamento ”chique” com esses “canapés” de caviar, que atire a primeira pedra! ),  ou entao era de boa qualidade, em restaurantes decentes, mas vinha tao pouquinho, sò enfeitando alguns pratos, que nem dava pra sentir o gosto direito.

Na Russia eu estava curiosa para finalmente experimentar o verdadeiro caviar, mas ninguem tinha me avisado que o melhor acompanhamento para o caviar é a vodka! Pura! E eu que sempre achei que fosse champanhe… Resquicios das festas de casamentos…

A coisa mais facil de encontrar na Russia é caviar. Eles colocam caviar em tudo e custa pouco, se comparado com os preços da Italia e do Brasil. Jà que é assim, decidimos degustar nosso caviar com vodka em grande estilo e sem miseria no Caviar Bar do Grande Hotel Europe em Sao Petersburgo.

Como a gente nao entende absolutamente nada de caviar, pedimos o “menu degustaçao”, composto de 4 tigelinhas, cada uma com um tipo diferente de caviar: o vermelho de ovas de salmao (ainda que, teoricamente, caviar seria tao somente as ovas de esturjao, na Russia eles chamam de caviar as ovas de qualquer peixe) e os de ovas de esturjao beluga, ossetra e sevruga.

Segundo os experts do restaurante, o caviar é melhor apreciado em “blinis”, um tipo de panquequinha bem fina, em que se coloca também um pouco de ovo cozido triturado (gema e clara vem trituradas separadamente) e um pouco de sour cream. à mesa vem todo o kit para vc montar suas proprias panquecas, com os ingredientes que preferir, na quantidade desejada, conforme o gosto pessoal.

Eu nao botava fé, mas sabe que caviar é bom mesmo? Um sabor delicado e marcante que nao tem absolutamente nada a ver com as coisas horrorosas que eu havia comido até entao e que se passam por caviar.

Experimentando todas essas versoes do caviar, chegamos à conclusao de que se é pra comer caviar, tem que ir direto no beluga, o mais caro e o mais gostoso. Ou entao o negocio é o caviar vermelho, de salmao, que custa dez (!!) vezes menos que o beluga, tem muito sabor e vale o custo-beneficio! 

O ossetra e o sevruga nao tem gosto de nada se comparados com o beluga, e, embora mais baratos, nao sao exatamente economicos. Nao vale a pena o binomio qualidade-preço e, na minha opiniao, é jogar dinheiro fora.

Para acompanhar, vodka é claro! No restaurante eles tinham uma “carta de vodkas” e pudemos experimentar quase todas as marcas disponiveis! Descobri que nao é que eu nao goste de vodka, eu gosto é de vodka boa! A Standard Imperia é deliciosa, nao parecia uma bebida com gradacao alcoolica de mais de 40° (mas embebeda como uma bebida com gradacao alcoolica de mais de 40°) e foi realmente o casamento perfeito com o caviar!

Adorei o verdadeiro caviar com a vodka, nunca mais digo que sao coisas sem graça! Mas nao posso me empolgar muito e tenho que me conformar com a ideia de que, com aquilo que custa, nao vou ver caviar de novo tao cedo… Pelo menos, garanti a minha garrafa de Standard Imperia, pra quando bater a saudade…

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Chateau Lafite Rothschild

Pra quem tem um namorado sommelier (meu caso!), uma viagem a Bordeaux só será uma viagem a Bordeaux se no roteiro constar uma visita a alguma vinícola… Não me lamento, afinal, Bordeaux é a pátria de alguns dos melhores vinhos do mundo.

Ainda nos preparativos da viagem, a tentação de conhecer um produtor renomado era enorme, no entanto, começamos a procurar um produtor anônimo, pois as vinícolas mais famosas possuem preços proibitivos para os pobre mortais.

Nos guias de viagem sobre Bordeaux, é possível encontrar uma infinidade de produtores de vinho que abrem as portas para visitação, mas, com algumas diferenças de “procedimento” em relação à Itália; entre elas descobri que uma boa parte das vinícolas de Bordeaux cobra uma taxa de uns 5 a 10 euros por pessoa pela visita.

(Nota: Eu acho o fim do mundo essas taxas, não pelo valor, mas pelo simples fato de existirem. Na minha concepção, se estou visitando um produtor de qualquer coisa, é porque estou interessada em conhecer seu produto e, se gostar, pago o preço de mercado para adquiri-lo. Pagar a um produtor para conhecer seu produto vai contra a minha religião. Ainda bem que na Itália essas taxas são bem raras).

Bom, o namorado sommelier nem deu bola para os guias de viagens e foi logo comprando um guia de vinhos franceses (o Hachette) para escolher os melhores produtores “econômicos” da região de Bordeaux e assim definir a vinícola a ser visitada e os vinhos a serem adquiridos.

Acontece que, além da qualidade dos vinhos e de uma faixa de preços indicativa, o Hachette fornece também uma informação sobre uma outra “diferença de procedimentos” em relação à Itália: a maior parte das vinícolas em Bordeaux não vende vinhos diretamente ao consumidor! Você pode até visitar a vinícola, mas se quiser adquirir alguma coisa, deve se dirigir à enoteca mais próxima! Estranho, mas funciona assim…

Em assim sendo, fomos verificar rapidinho de que modo as vinícolas mais famosas realizavam suas vendas. Se fosse nesse mesmo esquema de não vender diretamente ao consumidor, seria perfeito, pois não ficaríamos (o namorado não ficaria, quero dizer) tentados a gastar horrores para adquirir uma única garrafa.

E não é que a nossa primeira opção, a lendária Chateau Lafite Rothschild, é aberta a visitação, faz visitas em inglês, não vende nada diretamente ao consumidor e nem cobra nada pela visita! Basta mandar um email agendando a data e voilá! A lenda se torna realidade!

Eu não entendo nada de vinhos, mas nunca tinha visitado uma vinícola tão bonita e tão automatizada! Uma convivência mais do que harmoniosa entre o clássico e o moderno.

A única coisa feita a mão por ali é a colheita, pois ainda não inventaram uma máquina que substitua a sensibilidade humana na hora de selecionar as melhores uvas. Depois de colhidas, passam de uma máquina a outra, que controlam tudo, desde a fermentação até o engarrafamento.

Uma coisa curiosa que o guia nos contou é que a filtragem é feita com claras de ovo. Eles colocam essas claras no vinho, porque elas “empurram” os sedimentos para o fundo do barril para a decantação e também ajudam a dar “elegância” ao vinho. Se essa informação não me tivesse sido dada pelo guia do Chateau, eu acho que não acreditaria… que nojo!

Já engarrafado, o vinho fica armazenado na parte mais bonita do Chateau,a adega escavada na rocha, debaixo do castelo. São corredores e salas quase escuros, iluminados tão somente por lâmpadas que imitam velas, temperatura constante e muita umidade no ar, com direito a mofo pelas paredes e aquele clima de castelo mal assombrado dos filmes, principalmente a parte mais antiga, onde estão armazenadas garrafas de vinho produzidos desde 1797, que, segundo o guia, ainda estão boas para o consumo… Acredite se quiser!

E finalmente a degustação! O guia abriu uma garrafa de Lafite Rothschild de 1995. Até quem não entende nada de vinho reconhece que aquele é um “Senhor Vinho” e percebe o motivo pelo qual virou uma lenda entre os amantes do vinho. Mas… precisava custar tão caro?

Numa enoteca no centro de Bordeaux, a mesma garrafa que experimentamos no Chateau era vendida a “módicos” 600 euros! Se eu for considerar uma média de 6 taças de vinho por garrafa, significa que, na vinícola, eu bebi 100 euros de vinho! Absurdo, né? Apesar de ser um vinho fantástico, eu não acho que ele vale o que custa! Mas essa é a humilde opinião de uma leiga no assunto…

Uma pena que não tirei muitas fotografias do Chateau… Eu estava tão empolgada com a visita, que me esqueci completamente da máquina fotográfica…

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Taverna del Capitano

 O nosso último reveillon foi na Costa Amalfitana, mas não foi muito fácil organizá-lo… Como eu mencionei num outro post, a festa para celebrar o ano novo na Itália consiste numa super mega janta regada a muito vinho, normalmente num restaurante bacana. O problema estava justamente em conciliar o “muito vinho num restaurante bacana” com o retorno ao hotel pelas estradas sinuosas típicas da região.

Depois de muito pesquisar, fomos parar na costa de Sorrento, numa cidadezinha chamada Nerano, mais precisamente na baía de Marina del Cantone, no restaurante Taverna del Capitano.

A Taverna é uma graça, antiga casa de pescadores que conserva intactas as suas características, além de ser exatamente o que estávamos procurando: restaurante excelente (2 estrelas michelin) e um quarto ali mesmo, a nossa única dificuldade depois do jantar seria subir algumas escadas… Perfeito!

Pra ser sincera, eu gostei ainda mais do lugar porque fazia muito tempo que eu não passava um reveillon na praia e a Taverna del Capitano é do tipo pé-na-areia – quer dizer, pé nas pedras, porque as praias ali não são de areia…. mas tá valendo! E, além disso, diz a lenda, que é exatamente nessa baía que moram as sereias, causadoras de tantos naufrágios. (Eu adoro lendas e lá estava eu a imaginar Ulisses dando ordens à sua tripulação a fim de que os ouvidos fossem tapados com cera, pois só assim poderiam escapar do canto fatal das sereias e evitar o naufrágio, como conta Homero em sua Odisséia.)

O jantar de reveillon foi o máximo! Além da qualidade da comida, a apresentação era super divertida. Só tinha um detalhe…. Depois que vim morar na Europa, tive que aprender regras de etiqueta pra não fazer feio nessas ocasiões. Quando eu achava que já estava ficando uma expert com talheres e copos, que já estava dando conta de enrolar spaghetti num garfo com um mínimo de classe e sabendo manusear com um pouco de desenvoltura aqueles “instrumentos cirúrgicos” usados para crustáceos, eis que me deparo com “esse” jantar de reveillon! Os meus parcos conhecimentos de etiqueta não me serviram pra nada!

O antipasto veio num prato retagular, com 12 “buracos”, parecido com uma caixa de ovos elegante, e, em cada buraco uma coisa diferente, umas coisas mais sólidas, outras mais líquidas… e agora? Uso o garfo? Uma colherinha, talvez? Dá pra misturar os ingredientes dos diversos buracos?

Em seguida, veio um saco plástico fechado, cheio de um caldo de frango com alguns ravioli boiando, e um macarrão oco servindo de “canudinho”, para tomar o caldo direto do saco plástico, com direito a todos os rumores que esse “procedimento” pode causar… Terminado o caldo, era “só” abrir o saco plástico para pegar os ravioli…

Mais adiante vem um pedaço de carne enfiado num espeto de uns 80cm de comprimento, todo enfeitadinho e que quase ocupava a mesa toda. E foi assim o jantar todo: a cada prato, uma nova surpresa!

O ápice foi a sobremesa! Uma estrutura maravilhosamente montada e sustentada em pé por, pasmem!, um balão de gás!. Se você tirar o balão dali, a sobremesa desmonta inteira e, pior, onde você coloca o tal balão? Deixa voar livremente pelo restaurante? Se você deixar o balão, não consegue comer a sobremesa e ainda corre o risco de destruir o equilibrio e ver um pedaço de biscoito voando livremente pelo restaurante… Era engraçado o modo como as pessoas se olhavam interrogativas e observavam como os outros estavam fazendo para comer…

O jantar foi fantástico, não só pela qualidade da comida, mas principalmente porque a apresentação dos pratos deu uma certa cumplicidade a todos os presentes e quebrou o gelo de “jantar formal em restaurante chic”, sem precisar apelar pro vinho. No final estavam todos brincando com os balões da sobremesa, fazendo luta de espadas com os espetos gigantes da carne e discutindo coisas profundas como: “os ingredientes do antipasto ficam melhor juntos ou separados?”

Me arrependo de não ter levado a máquina fotográfica pro restaurante e de não ter feito foto dos pratos, mas “emprestei” as duas fotos que seguem do site da Taverna del Capitano, só pra dar uma idéia do que eles propõem:

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Melhor pizza do mundo?

 Sempre que quero comer uma pizza boa em Nápoles, procuro as pizzarias filiadas à associação da “vera pizza napoletana”, que possui um estatuto e determina exatamente como as verdadeiras pizzas napolitanas devem ser feitas. Confesso que sempre comi pizzas de excelente qualidade nesses lugares, mas tinha uma pizzeria em Nápoles, não associada, que me intrigava… Da Michele.

É uma das mais antigas pizzerie de Nápoles e uma das mais famosas. Todo mundo diz que é a melhor pizza da cidade e sua fama chega em Milão. Perguntei a uns 4-5 napolitanos, do concierge do hotel até vendedor de loja e garçon de cafeteria: “onde posso comer a melhor pizza da cidade?”, a resposta vem sempre sem hesitação: Da Michele!

Diante dessas evidências, lá fui eu conhecer a tal pizzaria.

Uma pizzeria simples, no centro de Nápoles e cheio de gente na porta, em plena quinta feira útil, às 15h30 da tarde!

Peguei a minha senha e fiquei do lado de fora pensando com os meus botões: a melhor pizza da cidade deve explicar essa quantidade absurda de gente na porta… e enquanto esperava, divagava sobre o lugar:

“Bom, normalmente as melhores comidas são aquelas feitas em seus lugares de origem, o resto não passa de imitação e adaptação da receita original… A pizza é italiana por excelência, logo as melhores pizzas do mundo são italianas. Nápoles é a terra natal da pizza, portanto, a pizza napolitana é a melhor pizza da Italia. Assim, a melhor pizza napolitana será, seguindo essa lógica, a melhor pizza do mundo… Se Da Michele faz a melhor pizza napolitana, logo Da Michele faz a melhor pizza do mundo!”

Eu sei… é meio viajante esse raciocínio, e não tem muito embasamento científico, mas foi o que conseguiu me convencer a esperar mais de uma hora e meia no frio pra comer uma pizza!

Finalmente chamam a nossa senha, às 17h. A pizzeria é bem feinha, pequena, poucas mesas, um pizzaiolo, um forno a lenha e pizza saindo daquele forno em escala industrial.

O garçon te ignora completamente, aponta dois lugares vazios numa mesa comprida, onde já estava instalada uma familia, joga os talheres e um guardanapo na mesa e pergunta o que vamos comer.

As opções são: pizza margherita ou pizza marinara (em tamanho normal e grande, e com a opção de colocar mais mozzarella na pizza margherita) e pra beber cerveja, refrigerante ou água.

Pedido feito e lá se foram mais meia hora de espera. Só às 17h40 que finalmente consegui ver a cor do que deveria ser a melhor pizza do mundo.

Primeira garfada e chego a conclusão de que a pizza Da Michele é simplesmente… medíocre!

Não sei se criei muita expectativa em relação ao lugar, mas a pizza não tem absolutamente nada de especial. A pizza não é ruim, pelo contrário é boa, mas não justifica mais de duas horas de espera, nem o péssimo atendimento. Já comi pizzas tão boas quanto, em outras pizzarias napolitanas, onde não precisei esperar nem 15 minutos e fui muito bem atendida.

E acredita que quando fomos pagar a conta o garçon ainda teve a cara-de-pau de pedir gorjeta??

O meu raciocínio funcionou apenas parcialmente, porque na minha opinião, a melhor pizza do mundo realmente se come em Nápoles, mas não na pizzaria Da Michele!

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Tartufo em grande estilo

 Aproveitando a minha fase comilona, vou escrever sobre um restaurante fantástico e chiquetérrimo no Piemonte. Como não é todo dia que dá pra frequentar um lugar desse nível, quando dá, não posso deixar passar em branco, né?

Pois bem, todo ano, no outono, tem a feira do tartufo em Alba, no Piemonte, e todo ano, o meu namorado, um viciado em tartufo, escolhe um dos melhores restaurantes da região pra poder degustar o tartufo em grande estilo e sem miséria!

Esse ano fomos ao Ristorante di Guido da Costigliole, localizado numa cidadezinha perto de Alba, chamada Santo Stefano Belbo. Quer dizer… o tal restaurante não fica exatamente nessa cidadezinha, fica na periferia (?) numa localidade chamada San Maurizio. É pra lá do fim mundo, não tem nada perto! Fica no meio de vinhedos, no alto de uma colina e pra chegar lá só mesmo enfrentando estradinhas estreitas e cheias de curvas.

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Depois de muitas curvas, eis o restaurante! Mas que vista!! Nem tinha entrado ainda no restaurante e já estava feliz. Qualquer pão com mortadela naquele jardim já estava de bom tamanho, nem precisava do tartufo…

O restaurante, na verdade, faz parte de um hotel, o Relais San Maurizio, um antigo mosteiro do século XVII restaurado, em cuja adega hoje fica o restaurante. Não entrei no hotel pra conferir, mas a adega conserva ainda suas características com as paredes de pedra a vista. Lindo demais!

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Por causa da época, o restaurante oferecia dois menus desgustação de tartufo: um mais simples e outro mais elaborado. Não tivemos dúvidas: queremos um simples e um elaborado, para podermos experimentar o tartufo em todas as combinações possíveis.

No menu simples, o tartufo era servido sobre carne crua, sobre ovo com a gema bem molinha, sobre um macarrão na manteiga, pratos realmente simples e que não possuem muitos sabores misturados.

Já o menu mais elaborado tinha frango com molho, risotto, bacalhau, ou seja, sabores mais marcantes e mais mistura de ingredientes.

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Fenomenal! Os dois menus estavam divinos, mas o menu simples é imbatível! A conclusão a que chegamos foi: não adianta querer inventar com o tartufo, quanto mais simples o prato, mais o tartufo se faz presente e mais gostoso fica!

A única coisa de que não gostei nesse restaurante foi a sobremesa. Eu pedi um tiramisù reinventado pelo chef, ou seja, um tipo de escultura feita com os ingredientes do tiramisù (creme de mascarpone, pan di spagna, etc…) mas sem misturá-los. Meio decepcionante, pois, pra mim, o bom do tiramisù é justamente a mistura dos sabores. Meu namorado pediu um trio de chocolate, que também estava bem fraquinho, era um prato com três micro porções de coisas que, prestando bem atenção, até lembravam chocolate, mas o prato não me entusiasmou muito.

Quero dizer, não é que a sobremesa estivesse ruim, pelo contrário, estava deliciosa, apenas não conseguiu atingir o nível de excelência dos pratos salgados, e foi isso que me decepcionou um pouco. Eu é que estava com muitas expectativas…

Mas no final das contas, foi um almoço espetacular! Foram quatro horas de pura satisfação e, pra variar fomos os últimos a sair do restaurante, por volta das 17h…

Agora é começar a economizar pro ano que vem… Essa brincadeira custou mais de 300 euros por pessoa…

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Gastronomia natalícia

 Uma das coisas que eu acho mais interessante com relação à comida na Itália é que é os menus sempre variam conforme a estação do ano, ou a festa da vez. No Brasil, nós até temos algumas coisas típicas para certas datas festivas, mas na Itália eles levam isso realmente a sério.

Por exemplo, você não vai ver nenhum italiano comendo polenta no verão (só turista), em Milão tem um restaurante especializado em queijos que só abre no inverno, na Páscoa todo mundo come “chiacchiere”, uma massa fininha frita com açúcar, e no Natal italiano abundam comidas típicas, que você só vai conseguir experimentar nessa época do ano. As minhas preferidas são o Panettone Gastronomico e o Pan D’Oro.

O Pan D’Oro é quase igual a um panettone, daqueles que nós conhecemos no Brasil, mas muito mais macio, sem nenhum tipo de fruta seca ou chocolate dentro e recoberto de açúcar de confeiteiro.

Descrito assim, parece muito sem graça… Afinal, o que tem de tão bom num panettone sem recheio? Resposta: o jeito que os italianos o preparam!!

Normalmente eles aquecem rapidamente as fatias de Pan D’Oro no forno, para que fiquem quentinhas e tostadas por fora, mas macias por dentro, e depois as recobrem com creme de chocolate. (O creme de chocolate feito em casa é melhor, mas um potinho de Danette cumpre bem essa função…) É de lamber os beiços!

Já o Panettone Gastronomico é panettone só no nome. Excluindo o formato, não tem nada a ver com um panettone. A primeira vez que o vi foi como um aperitivo num jantar em casa de amigos…

Achei melhor não comentar nada pra não parecer muito caipira, mas qual seria a sua reação? O negócio tem nome de comida doce, formato de comida doce, vem embalado em celofane, tal qual um doce, e me servem antes da janta!?! Não é pra achar estranho? Como eu poderia desconfiar que aquilo era salgado?

Isso mesmo… o tal panettone gastronomico é salgado! E é feito como se fossem camadas de sanduíches fininhos, mais ou menos assim: numa base redonda tem uma camada de um tipo de pão bem fino, sobre o pão um recheio qualquer, conforme o gosto e a criatividade (salame, paté, queijo, salmão, verdura…), sobre o recheio, outra camada de pão fininho, sobre esse pão, outra camada de pão, recheio e pão, e assim sucessivamente: pão, recheio, pão, pão, recheio, pão, até fazer uns 5 ou 6 andares de “sanduíchinhos” recheados de maneira diversa.

Daí é só cortar o panettone gastronomico em “fatias” e as pessoas vão pegando os sanduíchinhos, no melhor estilo “finger food”.

Pra descomplicar a minha complicada descrição, eu “emprestei” a foto de um panettone gastronomico do site http://www.gennarino.org/panegastro.html …

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O problema é que, agora, euzinha, uma viciada em comidas e tradições, não consigo mais passar um Natal na Itália sem ao menos comer um pedacinho dessas delícias.

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Salsamenteria Baratta

 Certa vez alguém me disse que na cidade natal de Verdi existia um “salumeria” (lugar onde se vende salames e afins), transformada em restaurante, muito tradicional na Itália, onde seria possível comer salames e presuntos fantásticos a preços irrisórios.

É claro que a dica não me saiu da cabeça: visitar a cidade natal de Verdi e ainda comer bem? Por que não? Só tinha um detalhe: eu não me lembrava mais do nome da salumeria… ainda bem que o nome da cidade não tinha como esquecer: “Busseto”! Numa pesquisa rápida pela internet não foi difícil achar o restaurante (não existem muitas salumerias tradicionais em Busseto) e eis que fomos conferir in loco a dica…

Busseto é bem bonitinha, típica cidadezinha do interior, mas não tem nada de especial que mereça uma visita por si mesma, mas vale ir até lá só para comer na Salsamenteria Baratta.

O lugar é encantador, possui uma decoração de “armazém antigo” (é de 1873…), com coisas dependuradas pelas paredes, garrafinhas de molhos, de pimentas, vinhos e mais um milhão de cacarecos espalhados.

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Não existe um menu, o garçom chegou com um bloquinho de papel, já perguntando o que a gente queria, como se nós já soubéssemos quais eram as possibilidades… Pra não ter erro, pedimos um pouquinho de tudo e um vinho para acompanhar.

O vinho (a maioria tinto espumante) é servido em tigelinhas de cerâmica, um pouco menores do que aquelas que eu uso pra comer sucrilhos, não existem taças. Achei engraçado tomar vinho assim, e quis saber o porquê da tigelinha. Eis que o garçom, sempre muito solícito, explicou que, antigamente, depois de tomar sopa, era comum encher a tigela da sopa com o vinho para terminar a refeição. A sopa foi eliminada, mas o costume de tomar vinho em tigela persiste.

Lá também não existem nem pratos, nem talheres, vem tudo numa tábua forrada com papel e com alguns palitos de dente. A “refeição” consiste nesta tábua de frios farta e variada, com destaque para o “culatello” (um tipo de presunto cru, feito ali perto), a cesta de pães que nunca falta numa mesa italiana, alguns potinhos com vários tipos de molho e uns pedaços de melão e de queijo (o parmesão é maravilhoso! …daí eu me lembrei que estávamos perto de Parma).

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Ficamos mais do que satisfeitos com o nosso “almoço”, comemos realmente bem e gastamos pouco (15 euros por pessoa, vinho incluído). Só tivemos que tomar o café na cafeteria em frente, porque ali eles não tem…

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