Dirigindo na Russia

Eu adoro viajar de carro e adoro a liberdade que um carro oferece: poder ir e vir quando quero, parar onde bem entendo. Mas reconheço que nao é em todo lugar que o carro é bem vindo. Normalmente, uso o carro quando o objetivo é explorar uma pequena regiao, como o Anel de Ouro, ou entao visitar cidades pequenas que nao possuem um sistema publico de transportes rapido e eficaz, como Novgorod. Carro em cidades grandes é contra a minha religiao!

Pois bem, alugamos dois carros pelo site da Hertz – um para rodar o Anel de Ouro e outro para fazer um bate-e-volta de St. Petersburg a Novgorod. O site avisou que o carro seria entregue por uma subsidiària, o que me deixou um pouco preocupada, mas sem motivo. Tanto o escritorio da Hertz  no centro de St Petersburg quanto aquele do centro de Moscou sao pequenos, mas os funcionarios entendiam e falavam ingles e o carro estava nos esperando. Sò achei o funcionario de Moscou mais eficiente e preocupado com o bem-estar do cliente.

Os documentos para alugar um carro são: o passaporte e a carteira internacional de habilitaçao, mas o funcionario da Hertz em Moscou quis ver também a carteira nacional de habilitação, para saber desde quando o namorado era habilitado. Eles nao alugam carro para quem é habilitado há menos de 1 ano e a carteira internacional nao trazia essa informaçao. Em St. Petersburg, só a carteira internacional já estava de bom tamanho, o funcionário não quis ver mais nada…

Quando o funcionário de Moscou começou a fazer perguntas sobre onde iriamos com o carro, achei que ele fosse um enxerido…  Estou alugando um carro e vou com ele para onde quiser, certo? Errado! Para sair da cidade com o carro, a Hertz deve autorizar expressamente e, se somos parados por algum policial fora da cidade, sem essa tal autorização, é multa na certa!

O funcionário de St. Petersburg, por sua vez, nao estava nem aí para onde iríamos. Parecia querer se livrar da gente o mais rápido possivel e, ainda bem que me lembrei dessa autorizaçao, senão não a teriamos!

Excluindo esse detalhe, todo o resto foi padrao: pagamento e garantia com o cartão de credito, seguro, telefone para emergencias… Assinamos uns papeis em russos e um contrato bilingue (russo e ingles) e saimos felizes com o carro pelas estradas russas.

As estradas russas nao diferem muito daquelas brasileiras: estreitas, com buracos, muitos trechos sem acostamento e em obras, policiais escondidos e, nas proximidades das cidades maiores, um trafego pesado de caminhões e carros muito velhos.

Mas vale pela paisagem! Casas de madeira, coloridas e trabalhadas, que nos acompanharam por todo o trajeto. Uma mais bonita do que a outra! Até as “lanchonetes” pela estrada eram de madeira e coloridas. Parávamos com frequência para tirar fotos.

Alguem deve se estar perguntando: mas e a sinalizaçao da estrada? Bom… a sinalizaçao é toda no alfabeto russo, mas eu pensei que fosse mais complicado. Bastou memorizar como se escreve o nome da cidade para onde queríamos ir e das principais cidades da “rota a seguir” e pronto! O resto é muito parecido com a sinalizaçao de qualquer cidade na Italia.

Como a comunicaçao é inexistente, tivemos que ir descobrindo por conta como as coisas funcionavam e a aventura da vez foi encher o tanque.

Depois que nos asseguramos que o posto aceitava cartão de credito (coisa rara por ali) fomos diretamente para a bomba encher o tanque. A bomba liberou um litro, parou de funcionar, uma voz num alto falante gritava alguma coisa em russo e todo mundo olhava pra gente.

Descobrimos o motivo: o pagamento deve ser feito antecipadamente, e foi muito engraçado tentar explicar, em russo é claro, (usando um dicionario e um guia de frases feitas), que gostariamos de encher o tanque, que pagariamos o valor do tanque cheio e que, obviamente, nao sabiamos de antemao qual seria esse valor.

Nao teve conversa! Nao sei se a moça do caixa nao entendeu o que queriamos ou se foi inflexivel, o fato é que escolhemos um valor ao acaso sò pra ter um pouco de gasolina e começar a ter noçao da capacidade do tanque.

No segundo posto jà estavamos nos achando experts e fomos diretamente ao caixa fazer o pagamento antes de tentar encher o tanque. Desta vez a atendente implicou e nao entendiamos com o que, pois ela havia em mãos o valor a ser cobrado e o cartão de credito.

Com muito custo deduzimos que para os postos na Russia o importante nao é o valor a ser pago, mas a quantidade de litros que vc pretende colocar. A atendente estava reclamando que os 800 rublos que gostariamos de pagar sao 30,4 litros e deveriamos colocar ou 30 ou 31 litros, jamais um numero quebrado.

A teoria se confirmou no terceiro posto, quando um frentista (dessa vez tinha um frentista) arrendondou na bomba a quantidade de litros, nao o valor a ser pago… Pelo menos, desta vez, conseguimos encher o tanque!

É claro que para a aventura ficar completa, um policial deveria nos parar por excesso de velocidade! Na Russia, o limite nas estradas é de 90km/h e, quando tem alguma cidade perto, esse limite cai pra 60km/h. Nós estavamos seguindo os 90km/h e fomos parados pq nao reduzimos a velocidade quando passamos por um aglomerado de 4 casas e 1 ponto de ônibus.

Segundo o policial, aquilo era uma cidade e nós estavamos acima do limite previsto. A comunicaçao foi patética: o policial sabia 3 ou 4 substantivos em ingles, escrevia os limites de velocidade com o dedo na poeira da lataria do carro e, quando descobriu que vinhamos da Italia, ficava repetindo: “Bella Italia!”.

A multa, segundo o que o policial escreveu na sujeira do carro, seria de 2000 rublos a ser paga imediatamente. O namorado abriu a carteira, estava pegando o dinheiro para pagar a multa, quando o policial, super rapido, mete a mão na carteira, pega uma nota de 1000 rublos e diz “ok, ok”, mandando a gente ir embora… Sem comentários…

A devoluçao do carro foi outra novela. Deveriamos devolver o carro nos aeroportos, tanto em Moscou, quanto em St. Petersburg.

Em Moscou foi tranquilo. Fomos previamente avisados de que ali não tinha exatamente um lugar para a devolução e que bastava telefonar com uns 20 minutos de antecedência que alguem apareceria para pegar o carro. Foi exatamente o que aconteceu!

Em St Petersburg foi uma piada. Ainda no escritorio da Hertz no centro da cidade eu peguei um mapinha do aeroporto onde tinha assinalado o lugar de “car rentals”. Chegamos no aeroporto, demos várias voltas em busca do tal “car rentals” e nada! Procuramos placas em inglês e em russo e nada! Paramos o carro no meio da rua, perto de onde achávamos que deveria ser o lugar do tal “car rentals”, perguntamos a uns policiais onde ficava a Hertz ou onde é o lugar de devoluçao do carro e… nada! Ninguem sabia, ninguem conhecia!

Resolvemos estacionar o carro e procurar o escritorio da Hertz dentro do aeroporto. O escritorio fica na parte de desembarque, onde só quem esta desembarcando tem acesso. Descobri isso pq, depois de rodar todo o aeroporto, pedi informaçoes a uma aeromoça, que tinha acabado de desembarcar.

Segundo a teoria, só quem desembarca poderia entrar naquela parte do aeroporto. Eu dei uma de joão-sem-braço e fui entrando… Se fosse proibido, alguem me barraria! Ninguem me barrou, mas também não tinha nem uma alma no tal escritorio da Hertz. Apenas uma mesa e um computador ligado!

A solução? Ligar para o número de emergências para conseguir devolver o carro!  Atendeu um fulano que disse que nos encontraria em 10 minutos.

15 minutos se passaram e nada…. Ligamos de novo… “Ah, o fulano deu uma saidinha e volta daqui a 15 minutos e depois vai encontrar vcs”

Mais 15 minutos se passaram e nada! Ligamos de novo…”Ah, o fulano deve chegar em meia hora!”

O namorado explodiu: “Nós temos um vôo para pegar, não podemos passar o dia inteira a disposição da boa vontade de vcs… Sim, nós achamos o escritorio dentro do aeroporto, mas não tem ninguem por lá!… Não, nós não vamos esperar nem mais um minuto! O carro está no estacionamento e vamos deixar as chaves e os documentos do carro em cima da mesa do escritorio!”

O namorado desliga o telefone e me olha com uma cara incrédula: “Disseram pra deixar tudo embaixo do teclado do computador…”

Pode??

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16 thoughts on “Dirigindo na Russia

  • 07/09/2008 at 20:48
    Permalink

    Luisa

    Desta vez não foi só uma viagem…foi uma grande aventura!
    Eu tb gosto muito de alugar um carro porque nos dá muita liberdade.Geralmente nas férias de Verão é o que fazemos porque nos permite fazer percursos mais flexiveis,mas este ano optamos por fazer tudo de avião e de comboio!No ano passado fizemos uma viagem enorme em França e o meu marido chegou ao final das férias com uma dor de costas de arrasar! Este ano recusou-se a conduzir nas férias…de qualquer maneira acho que jamais o conseguia convencer a alugar um carro na Russia…ainda para mais com a dificuldade em o entregar no final…hehe…
    A situação da multa de trânsito tb foi engraçada…o que será que o policia fez com os 1000 rublos a que ganhou??Que país organizado..hehe

    Bjs

    Reply
  • 08/09/2008 at 03:59
    Permalink

    Nossa Luiza…vai ser difícil você ter uma viagem com mais histórias pra contar que essa!!!
    Cada post fico com mais medo da Rússia.
    Beijo

    Reply
  • 08/09/2008 at 14:11
    Permalink

    Oi, Margarida

    Aventura mesmo! Foi divertidissimo!
    Sabe que comigo acontece o contrario? Eu tento convencer o namorado a nao usar o carro, mas quem disse que consigo! Nao tem dor nas costas que o faça desistir do carro para usar transportes publicos…

    Bjs

    Reply
  • 08/09/2008 at 14:15
    Permalink

    Oi Carla

    Historia pra contar é o que nao falta! 🙂

    Sabe que a Russia nao dà medo… é um pais muito seguro, mas tem que saber levar tudo na esportiva e ser muito flexivel, senao vc sò passa raiva. 🙂

    Bjs

    Reply
  • 09/09/2008 at 10:26
    Permalink

    Acho que viajar de carro é realmente muito bom, mas não me atrevo a sair rodando por qualquer lugar. Aqui em Sevilla temos um e as viagens mais curtas s€ão feitas sempre nele (pq o probrezinho já tem lá sua idade…). Nos atrevemos a ir ao Marrocos porque um amigo marroquino nos acompanharia na chegada. Mas agora conhecendo mais as coisas e descobrindo que o inglês não é realmente a lingua mais falada do mundo, acho que vai ser dificil eu atravessar mais fronteias na direção! 🙂
    A Rússia a cada post me está impressionando mais. Quero ir mundo lá, mas acho que vou deixar esses lados para uma próxima década de vida. AInda falta tanta coisa mais perto que quero visitar…

    Reply
  • 09/09/2008 at 14:01
    Permalink

    Oi, Glenda

    No ano passado nòs viajamos pela Andaluzia de carro. Que aventura! é claro que o carro servia somente para fazer os deslocamentos entre as cidades e pra chegar atè o hotel. Dentro das cidades era tudo a pè, transporte publico ou taxi!

    Mas em Sevilla, nem com GPS a gente deu conta de se achar! Foi mais fàcil dirigir na Russia! 🙂

    Bjs

    Reply
  • 09/09/2008 at 17:47
    Permalink

    Estranho, mas… simplesmente “perfeito”, adoro esses insights!!!
    Parabéns, muito bem relatado… ótimo mesmo!

    Att
    Soraya

    Reply
  • 12/09/2008 at 12:02
    Permalink

    Oi Soraya,

    Obrigada pelos elogios! Continue acompanhando a minha saga russa que vem muita coisa por ai!

    Bjs

    Reply
  • 12/09/2008 at 14:50
    Permalink

    Luisa! seu relato eh uma maravilha)) gostei mesmo, muito obrigada

    Reply
  • 14/09/2008 at 10:13
    Permalink

    Oi Svetlana

    Obrigada! Fico feliz que vc tenha gostado!

    Bjs

    Reply
  • 25/10/2008 at 20:11
    Permalink

    Luisa, adorei as histórias! E fico feliz que você não tenha achado muita loucura dirigir na Rússia…as suas dicas não têm preço para quem está planejando ir para lá…
    Sobre os nomes das placas, fiz a mesma coisa na Grécia: o importante era saber como era escrito o nome dos destinos e principais entroncamentos, e o resto…só aproveitar 🙂

    Reply
  • 27/10/2008 at 11:58
    Permalink

    Oi Emilia

    A gente fica com tanto medo de dirigir nesses paises, digamos, “exoticos” e acaba sendo mais facil do que o previsto… Ainda bem, né?

    Eu achei as placas da Grecia mais dificeis do que as placas russas, acredita?

    Bjs

    Reply
  • 30/09/2010 at 05:07
    Permalink

    Luisa,
    Pretendo ir a Russia em Julho/2011 e vi seu blog lá no VnV. Que aventura fantástica. Estou adorando seu blog. Eu gosto muito de viajar por conta própria, estava na dúvida se iria a Russia por conta própria ou não, mas lendo seu blog até agora já tomei a decisão. Eu não teria paciencia de encarar todas estas peripécias numa boa. Já teria me estressado por bem menos. Acho que vou seguir o comentário da Fe Costa e procurar aquela agencia brasileira. Vou continuar a me divertir com sua aventura e ler tudinho sobre a Rússia.
    Abs

    Reply
    • 01/10/2010 at 20:21
      Permalink

      Oi Flora
      Pra encarar a Russia tem que ter espirito aventureiro e levar tudo na esportiva, senao è sò stress…
      Mas se a sua viagem se resumir a Moscou e a S. Petersburg, nao acho que seja tao dificil organizar tudo por conta propria…
      Bjs

      Reply
      • 03/02/2012 at 01:28
        Permalink

        Como assim se nao levar na esportiva e so estresse?

        Reply
        • 06/02/2012 at 21:15
          Permalink

          Oi Eneias
          E’ que sao tantos os perrengues, que se vc nao rir de si mesmo e nao rir da situaçao, vc sò vai passar raiva…
          Bjs

          Reply

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