Ferrapontov

Acho que nao é novidade nenhuma que eu tenho uma certa fixaçao por Patrimonios da Humanidade, pois todas as vezes que viajo procuro inclui-los no roteiro, por mais longe e fora de mao que o tal “patrimonio” seja.

Pois bem, Ferrapontov é um desses lugares longe e fora de mao e, acho que foi o lugar mais complicado de organizar a viagem. Para um estrangeiro chegar até ali, acho que sò de carro mesmo (foi Ferrapontov que nos convenceu a alugar um carro na Russia!) e, de preferencia, com um bom mapa em maos.  Hotel é outro problema; em Kirillov eu vi somente dois hoteis: uma casa com cara de muquifo e uma placa “Hotel & Restaurante” na porta;  e o hotel onde ficamos, o Capercailye House, que custa uma pequena fortuna. Alem desses dois, os hoteis mais proximos ficam a 130km de distancia, em Vologda…

Tentamos de todos os modos reservar diretamente o Capercailye House: email, telefone, mas nada deu certo. Apelamos para o Hostelworld, recomendado por muita gente; pagamos os 10% exigidos pela reserva e acreditamos na sorte.

Um dia antes de partir para Ferrapontov, pedimos para a recepcionista do nosso hotel telefonar para o Capercailye e confirmar nossa reserva. Nao preciso nem dizer que ninguem sabia da existencia da nossa reserva, que nunca tinham ouvido falar do Hostelworld e que ainda bem que nòs ligamos antes, pois o hotel é novinho, ainda estao construindo uma parte e, se chegassemos sem avisar, bateriamos com a cara na porta.

Achei legal que o pessoal do Capercailye tenha nos avisado das obras no hotel e perguntado se gostariamos de nos hospedar por là mesmo assim. Quero acreditar que tenha sido uma preocupaçao para com o bem estar do cliente e nao um modo para tentar nos convencer de nao ir…

Chegamos em Kirillov, rodamos por tudo e nao achamos nenhuma referencia sobre como chegar ao hotel. Rodamos bem uma meia hora por toda a cidade, até que decidimos parar num posto de gasolina para pedir informaçoes.  Mostramos o nome e o endereço do hotel (escrito em russo, è claro) para o dono do posto, que carregava uma arma na cintura e nao falava um “a” em nenhuma lingua inteligivel.

O fulano tira o celular do bolso, telefona nao sei pra quem e, com um sorrisao, fica fazendo sinais de “ok”, “tà tudo bem”, enquanto conversa. Alguns minutos depois, do nada, aparece uma mulher dirigindo um carro daqueles 4X4, que fala um ingles impecavel e diz que é amiga do dono do posto e que, como é dificil chegar até o hotel, ela nos levaria até la.

Seguimos a mulher por estradinhas estreitas, em meio a bosques e lagos, passando por portoes com placas sinalizando: “propriedade privada – proibida a entrada” e chegamos sao e salvos! Por conta propria nao chegariamos ao hotel de jeito nenhum! E Angela, o nosso anjo, ainda deixou o numero do seu celular para caso precisassemos de alguma coisa ou se tivessemos algum problema com a lingua.

O hotel é lindo, todo de madeira, no meio de um bosque, com direito a lago e tudo, mas tem que gostar de caça para poder aprecia-lo. Acho que foi feito para hospedar caçadores russos ricos, pois toda a decoraçao é feita com móveis e objetos rusticos e visivelmente de otima qualidade, além de animais empalhados por todo canto (e algumas fotografias dos proprietários com seus “trofeus” recem abatidos). Nao é o meu estilo, mas tenho que reconhecer que, pra quem gosta, é um lugar e tanto!

Os proprietarios do hotel foram muito gentis e a comunicaçao praticamente inexistente. Usando o nosso guia de frases prontas, conseguimos tao somente saber a que hora e onde o jantar e o café da manha seriam servidos. O problema foi na hora de ir embora… Acredito que nós fomos os primeiros clientes estrangeiros do hotel, pois o proprietario nao sabia que precisava registrar nosso visto. Explicar, em russo, o que ele deveria fazer deu um pouco de trabalho, mas ele acabou telefonando sabe Deus pra quem e fez o registro direitinho.

Depois de uma maravilhosa noite de sono, numa cama super hiper confortavel, de um banho numa hidromassagem gigantesca e de um café da manha pesadissimo, mas muito gostoso, fomos finalmente conhecer Ferrapontov.

A atraçao principal do mosteiro sao os afrescos da igreja da Natividade, realizados por Dionisio, que cobrem toda a igreja (600 metros quadrados), e foram feitos em apenas 34 dias. Nessas horas eu queria entender alguma coisa de arte… Nao sei se fui fortemente influenciada pelo tempo exiguo de execuçao dos afrescos, mas nao consegui perceber se aquele era o estilo da época e do pintor, considerado um dos maiores artistas russos do seculo XV, ou se os afrescos foram feitos, como dizem, “nas coxas” mesmo.

É que, ao contrario dos outros afrescos em igrejas russas que eu tive oportunidade de ver, esses pareciam tao simples e tao desprovidos de detalhes, que tinham mesmo uma cara de coisa feita com pressa…

De qualquer modo, a tinta utilizada era de excelente qualidade, porque, nao obstante sejam afrescos do ano de 1502, as cores ainda estao vivissimas! Como nao dá pra tirar foto na igreja, eu roubei as fotos dos afrescos deste site

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

2 thoughts on “Ferrapontov

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *